—Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?

—E sou deveras, snr. Pimenta.

—E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... uma irmã?

—Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.

—V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.

—E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?

—Raras vezes tenho trocado duas phrases com a{90} snr.ª D. Anna; mas facilmente conheci a intimidade que liga dois anjos. Quando voltei do desterro, era eu em Lisboa um como desamparado dos mais vulgares affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o festival abraço do bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria; o céo era pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias me eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a patria na alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os braços d'uma adorada mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao mesmo tempo, me vi viuvo e orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de emigrado, e, ao saltar em terra portugueza, a dôr pungia-me mais, porque não achei ninguem que me désse um peito onde encostasse o rosto coberto de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da vida. Invejei a paz dos mortos. Abominei-me pela cobardia de viver...

—Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...—interrompeu D. Julia, retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella bem discursada elegia.

—Venceslau—tornou o lastimado Pimenta—é um caracter nobilissimo; porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam as outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que pautou aos actos do seu bem ordenado{91} juizo. Venceslau consolava-me com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, fóra do ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez tomou nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou debaixo da enxada de um coveiro.

N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador, mas sim a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o entrecho d'uma comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.