D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de tão sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas da arte scenica:
—Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz, dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na minha existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos—o que se fechou e outro que se abre.
—Porque?!—atalhou D. Julia.
—O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes desgraçados...—a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra de uma sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu{92} presagio era chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas senhoras. Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do primeiro abril do coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a pallidez reflexa dos luctos do espirito, a formosura esculptural de estatua que se curva a chorar sobre uma urna de cinzas. Esta era V. Ex.ª; a outra, a innocencia radiando alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz. Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo de quem já viu muita alegria de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora de dia bonançoso para quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era claridade. Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me comprehenderia; aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, saberia comprehendel-a eu.
D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que sensiveis á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo, inspirado pelo mavioso gesto da dama, continuou:
—V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?
—Sim...
—Não me está accusando no silencio da sua alma?
—De quê?
—Nem me accusará?...