—Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?

—Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as... Mas...—disse elle com suspensivo receio,{93} adocicando o aranzel á feição de galan timido:—No semblante de V. Exc.ª ha uma alteração que me está opprimindo...

—Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste... Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não ignora...

—Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso companheiro de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando com esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará estancar.

A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços.

—Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de esperanças!—proseguiu Eduardo enfaticamente.—Como ousaria voltar eu a pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a teriam visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado, afogando as temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam disputar á memoria de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa promettida, do anjo comtemplativo de uma imagem entrevista no céo! Eu não! e todavia...

D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse enfado. Era um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um franzido de fronte—coisas que a gente vê nos palcos e{94} nas salas, sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.

Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu, principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre, disse:

—Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.

—Não se enganou, minha senhora...