E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha fixidez, e ajuntou:

—Vim pedir-lhe a sua amisade...

—Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.

—Não tenho...

—Não tem? outra singularidade! Porquê?!...

—Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não póde ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.

E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.

D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse passada do imprevisto desfecho do dialogo.

Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era{97} o seu com a face encostada á palma da mão direita, relançando a espaços a vista para um grande espelho, onde se via toda. Estaria ella perguntando á copia do aço se o original estava nos seus momentos de formosura quando o gentil moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?

A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...{98}
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