—Pois semelhante amor deshonra-o?

—Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.

—Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do cavalheirismo...

—Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em funesta hora, apresentado.

—Não tenho a certeza de que elle a ama...

—Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da amiga de V. Ex.ª

—É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor percepção lhe terá sondado o espirito...

—É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube dizer porque eu não devia amal-a.

—E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico! Pobres mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio que traz o seu amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de honra na outra!... Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á conciliação cavalheirosa de V. S.as? Ai! felizes aquellas que não amaram nunca!... e as que amaram e perderam um homem de coração, fechem os olhos para o amor como elle os fechou para a vida... Acabei de entender o fim da sua visita—continuou D. Julia com mui senhoril compostura{96} e gravidade.—Vem encarregar-me de avisar Anna Vaz que...

—Não, minha senhora—accudiu Eduardo—o infortunio é conciliavel com a delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de tal commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que extrema indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que ponto o que devo a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador Vaz podem congraçar-se sem despundonor para mim. Vim, minha senhora...