—Acho; mas...
—Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?—voltou já muito alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os tregeitos jubilosos.
Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano, folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga, corria o seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.
—A minha admiração—dizia Francisco Vaz—foi grande quando hoje li a fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...
—Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me elegeu, quasi sem me conhecer.
—Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba, com sua malicia de serpente, seu maganão!—dizia o commendador espirrando uns sorrisos de inoffensiva perspicacia.—Sabe o que me admirou? foi a nenhuma importancia que{103} V. S.ª dava ás honras que lhe estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante em côrtes e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!
—Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu suppôr que os meus amigos se regosijem?
—Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito annos, pouco abastado em bens...
—Pouco!—interrompeu Venceslau a sorrir.—Parece-me que eu já disse ao snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me impedir de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.