—Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!—acudiu o commendador, batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.—Venceslau Taveira, se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não, senhor; Francisco Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o hospital. Com effeito, moço! paga-me generosamente!—proseguiu severisando o aspecto.—O enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso anjo que adoçou o fel da agonia do exilado, o amigo que deu lagrimas e sepultura ao cadaver de meu filho, é o mesmo que diz ao velho pae do seu morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero o teu leito, nem os teus cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital, para que não{104} possas pagar-me parte da divida de teu filho, que me expirou nos braços.»
Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:
—Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V. S.ª désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.
—Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde ser que o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e acceite com vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu defuncto amigo.
Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e estreitando ao seio o moço, continuou;
—Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr. Taveira: O meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?
—Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu, a snr.ª D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me elle, dias antes de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão longe dos seus, se a irmã estivesse em edade de comprehender a angustia do pae, e podésse consolal-o com os sentimentos do coração capaz de intelligentes lagrimas. «É muito nova—dizia elle—verá{105} chorar o pae, terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com os seus brinquedos.»
—Enganou-se o meu infeliz filho—disse o commendador enxugando os olhos.—A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu irmão é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro, exclamando:—Não morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim, que fico sem ninguem n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a orphandade, deu-me forças sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha filha no colo. E, quando me sentia desfallecer e estalar de saudade, voltava-me para Deus, mostrava-lhe a creança, e dizia «Se me deixaes morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!» Foi ella quem me amparou a mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo memorias de meu filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; mostrava-me as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar, chorava, e folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim da cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude eu esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem, mas desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que choramos. O meu anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha contar-me em sobresalto que vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu acreditava; e, se ella piedosamente me enganasse, ainda assim abençoaria{106} a sua caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o commendador restaurando o folego afadigado por soluços que, a espaços, lhe embargavam a voz—aqui tem o que foi a minha filha em menina muito tenra; e hoje, que ella vae nos seus dezeseis annos, peço-lhe, snr. Taveira, que desculpe ao amor paternal, o bom conceito em que a tenho...
—Em que a temos todos os que a conhecemos.
—Alegra-me essa opinião—exclamou o velho com vehemencia—enche-me de santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não quiz Deus que meu filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a creança, que me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como elle amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous santos amores que o esperavam—o de Julia, a sua amada desde a infancia, e o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu filho, tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida, pensaria no modo de identificar em coração á sua familia o honrado companheiro de desterro, o consolador nos desalentos, o irmão na soledade da terra alheia, o confidente nas saudades cruciantes, o enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da probidade, e do esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino prodigio dos pobres...