—Oh snr. commendador!—atalhou Venceslau—a sua amisade vae tão adiante do que eu fui e sou...{107}

—Quem sabe—ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas as mãos do deputado—quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irmã: «Venceslau, se amas esta doce creatura, sê meu irmão; sê filho de meu pae que t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias; deixa-nos afazer á ideia de que não é só a gratidão, mas tambem laços de sangue que nos prendem.» Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?

O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mão pela fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.

Estranhando a confusão silenciosa, o commendador não podia dilucidar o que havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez, semelhante a uma resposta negativa e indelicada.

—Impressionei-o dolorosamente!—balbuciou o velho.—Receba-me como gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o perturbaram, snr. Taveira.

Venceslau abraçou-o com impetuoso fervor, e disse:

—Faça-me justiça!...

—Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso é nobre; e tudo que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza, é sempre um sentimento que deve expandir-se nos braços do homem de bem. Sei o que é. Eu devia suspeital-o. Os moços da sua condição encontram esposas á competencia, e não o revelam porque a fatuidade desdoura, profana e deslustra o segredo,{108} que é a mais bella caução do amor sisudo e competente ao homem honesto. Se V. S.ª não guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe este desgosto. A mim, o lance, bem que pouco usual, não me afflige. Offereci-lhe minha filha: offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha riqueza; dei-lhe a maxima prova de quanto o prézo: estou contente; desobriguei-me de parte da divida de meu filho—divida de amor, que não podia ser paga em outra moeda. Agora, não me esteja assim pensativo, snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.

—Não, senhor, fallemos d'esta—replicou Venceslau já tranquillo.—Principío por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheço em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmão, porque ella, bem que lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada, é irmã do meu amigo Antonio Vaz. A outra senhora é D. Julia, que respeito e considero, porque vi tanta lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz a vêl-a do desterro como um anjo, e na patria como senhora de quem as outras devem aprender a lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a minha mocidade, snr. Vaz, namorou-se do trabalho, da fortuna avára dos que lá viveram das lides do espirito. As amantes d'esta especie costumam ser tão zelosas e egoistas das nossas attenções, que nos não abrem ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi assim comigo a fortuna do proscripto. Ou luctar com as extremas privações, deshonrando-me nos expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora escrevendo, ora ensinando; mas, tendo{109} sempre em vista a inutilidade do coração, debaixo d'um casaco cossado e remendado. Não amei ninguem na terra alheia; não amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui lá fóra: um operario labutando o pão quotidiano. Escasseia-me o tempo nas obrigações urgentes; não tenho podido desbaratal-o em diversões da alma, em preoccupações deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.ª sabe. Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho não esterilisam o coração. O homem, fiado no seu braço robusto ou em sua intelligencia productora, está bem no caso de poder aspirar ás consolações e alentos d'uma esposa, que lhe alumie a solidão escura do seu gabinete, e lhe duplique o esforço para a lucta. Algumas vezes me entreluziu ao animo quebrantado a doce alliança da intelligencia com os prazeres do coração. Figurou-se-me vêr perpassar por diante d'esta banca, onde a aurora de cada dia me encontra, uma imagem vaga, com o sorriso da coragem nos labios, e a luz da esperança nos olhos, fixos em mim, que a contemplava como a varonil inspiração dos meus rudes trabalhos. Era o relampago do secreto fogo que não se extinguiu—era talvez o estremecer dos sentimentos abafados no recondito da alma. Bem póde ser, snr. commendador, que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse, no momento em que V. S.ª agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo da snr.ª D. Anna Vaz. Eu cuidaria{110} então que era ella a imagem entrevista nos meus enlevos; sentiria a subita mudança do sonho para a realisação; e, se a surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento, o meu silencio teria a eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr. commendador—proseguiu Venceslau apoz uma grande pausa—sua filha não me ama...

—Como?—interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e batendo rijo a bengala no pavimento.—Como sabe que minha filha o não ama?