—Como sei que a não amo eu tambem. O meu coração, posto que inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento distincto da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmão, e affectivo apreciador de seu pae. Eu não podia ser amado, porque os meus breves instantes de conversação com a snr.ª D. Anna foram sempre alheios da minima referencia ao amor, ás vagas coisas do coração com que as horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo julgo da intimidade dos que são ou dos que parecem ser felizes. Praticávamos ácerca do nosso saudoso Antonio, ou dialogávamos em francez sobre assumptos que me pareciam adequados á perspicacia intellectual de tão habil menina...
—Sei isso, snr. Venceslau—sobreveiu o commendador.—Está-me V. S.ª dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.
—Não me justifico, snr. Vaz: explico a suprema{111} quietação da minha alma em presença d'uma senhora que eu estimava como se estima uma irmã favorecida de excellentes qualidades.
—Que ainda assim V. S.ª não podia amar...
—Não vem acertada essa reflexão; consinta o snr. commendador esta rudeza. As excellentes qualidades são amaveis; mas não é dever da mulher que as tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem é judicioso a quem lh'as admira revelar-lhe a sua dedicação, além dos limites do respeito. Era, todavia, muito de esperar que a snr.ª D. Anna Vaz inspirasse um grande amor e ao mesmo tempo o sentisse pelo homem a quem o inspirasse. Isso aconteceu.
—Que é? pois minha filha ama alguem?—interrogou Francisco Vaz com aspecto iracundo.
—Ama, sim, senhor.
—Quem?
—O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.
O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado, enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mãos e murmurou: