—O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraça d'essa mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem, é calamidade que faz chorar muita gente, e desata laços que nunca mais se refazem.
—Essas ideias, snr. Vaz—redarguiu Venceslau—são boas; mas permitta o céo que o genero humano vingue d'aqui a um seculo não vêr a fronteira que divide o coração plebeu do coração fidalgo. Quando esse oiro das almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S.ª serão acoimadas de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do christianismo nos vae alumiando. Não argumentemos sobre o ponto, porque ainda não é tempo de se abraçarem os adversarios. Antonio Vaz, o fidalgo, filho do decimo commendador de Santa Christina de Almudena pensava como eu; e, nas nossas palestras de socialismo e regeneração do homem, nunca nos lembramos que nossos bisavós haviam ganhado, com o sangue proprio e com{115} a vida de seus paes mortos em Alcacer-kibir, no Ameixial ou Montes Claros, as commendas que a liberdade nos vae tirar como mal adquiridas. A liberdade, que nós andavamos servindo, é essa que nos desbalisa e nivela com os filhos dos criados de nossos avós.
—Boa a fizeram...—resmuneou o fidalgo.
—Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos montes, não é d'ellas, é do sol. O fructo não se enverdece e sazona a si: é o calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a ideia é o motor do braço. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a França se refundia e recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de seculos. Entramos na torrente; fomos levados; um é morto ao pé do berço da liberdade; o outro não foge da morte; mas nenhum de nós, tendo uma irmã, lhe poria o preceito de estudar heraldica para saber que timbre e escudo lhes cumpria descobrir nos corações dos homens que as requestassem.
—Graceja, snr. Taveira? Não escolhe a opportunidade...—increpou o commendador com sincera mágoa.
—Não gracejo com V. S.ª: é com os preconceitos. Se eu os combati com as armas, não é muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as razões que V. S.ª allegar contra o casamento de sua filha serão boas, exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz é illustrado. Se pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio do futuro pela intelligencia, e á humanidade collectiva pelo coração, e de modo nenhum á raça exclusiva dos nobres pelo acaso{116} do nascimento. O pae de Antonio Vaz deve ser por força um alto espirito: de troncos verminosos não bracejam frondes com seiva de tão generoso sangue. Tal pae corre-lhe o dever de consentir que os abusos da ignorancia sejam motejados na sua presença, e que os paes, sacrificadores das filhas no infamado altar das tradições genealogicas, sejam malsinados de tyrannos.
—O seu apostolado, snr. Taveira—replicou o velho—é temporão em respeito á época; e é tardio em relação a mim. Sessenta annos não se remoçam; das raizes da educação inveterada não abrolham as flores com que em França os sans-culottes vestiam a deusa da Razão. Estou muito velho, e sou pae muito extremoso. Gósto da liberdade comedida, desde que odiei o despotismo que levou á forca meu parente Gomes Freire de Andrade. Abomino por egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo. Repito que desejo a victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que, em nome d'elles, me queiram a mim esbulhar da liberdade de casar minha filha com quem eu quizer. Repugna-me dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de quem aliás não recebi maior offensa que o intento de captar o amor de minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou obscuras ideias ácerca de tal casamento. Contra esta resistencia não me parece que a liberdade bem entendida legisle reacções.
—Pelo contrario—obtemperou Taveira—as leis protegem os paes, submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno legislador, se tal lei não existisse, propôl-a-hia. Emfim, não se enfade mais V. S.ª{117} com esta discussão esteril. Eu me encarrego, conforme á sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor, não ha motivo para que as inquietações de V. S.ª continuem. Hoje veiu elle aqui dar um testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou á conta de zelos a minha intervenção nos seus affectos; e offereceu-me sacrifical-os á minha felicidade, se eu alimentava alguma esperança contrariada por elle que me não soube adivinhar. Creio que o desconvenci da sua desconfiança. Ora o homem que se victimava a um amigo, de melhor vontade e com mais honrado primor se ha de immolar a um pae tão respeitado quanto estimado. Vá por tanto V. S.ª bem certo de que cessam hoje os seus sobresaltos. Eduardo não volta a sua casa...
—E o snr. Taveira?
—Já disse ao snr. commendador que devo á leal camaradagem de nove annos a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu me esquivar a cumpril-o.