—Já?! tão cêdo...
—São onze horas—disse Julia.
—Não me refiro ao relogio; é á cabeça—replicou o commendador, acerando a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.
Depois do chá, D. Julia ainda foi á alcova de Anna. Encontrou-a a ler as cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e esperanças que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.
—Quem sabe?—concluiu ella, modificando a sua primeira opinião—talvez que um poucochinho de febre assuste o extremoso coração de teu pae, e, em vez de te levar á sepultura, te conduza aos braços do teu Eduardo!...
Este erotico dizer, que não revia candor d'alma capaz de edificar as virgens legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao acre da malicia feminil, se tal conjectura coubesse em dama tão exemplar na edade em que os impulsos da innocencia não são vulgares.
O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina estava muito afogueada, e ao mesmo{125} tempo pedia á sua criada de quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio. Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da enferma. A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga, ahi pelas tres horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer abrir as janellas, quando a chuva estalava nas vidraças.
—Vá dizer á menina que eu quero vêl-a—mandou o commendador já attribulado.
Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente, apalpando-lhe as faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de quem implora indulgencia, beijou-lhe a mão.
Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto meigo que não, e accrescentou: