Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços cruzados na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo, levantou-se de golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio da desgraça de minha filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está aterrando! Ha dois dias que eu o via com affecto; não lhe admirava as virtudes nem arguia os vicios; pintava-se-me um como tantos que a sociedade préza; porém, desde que o imagino tão identificado á minha vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é este!...

E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente commovida o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o drama d'estes amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se arguisse de imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos, senão maus do caracter de Eduardo. Um—aquellas amphibologicas palavras, que lhe elle{133} dissera um dia antes, e ella recebêra com tal qual severidade. Outro—a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se outra causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de Julia, quando a noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não é facil averiguar, em quanto o curso dos successos nos não remover a triple muralha que véda o insondavel coração das creaturas predestinadas a distincções deploraveis.

Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu amor, Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas de Julia:

—Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de Venceslau! O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; nós, porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o melhor marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a eloquencia sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma paixão contrariada; Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem motivou dôres a ninguem. Estes dois homens são a consolação ao pé da desgraça. O coração cheio de balsamos ao lado do coração cheio de lagrimas. Um amou muito, o outro não amou nunca. Eduardo tem um passado que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. Venceslau, quando amar, ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira{134} florescencia da alma sem imagem de mulher morta ou viva que venha confrontar-se com outra...

—Mas que quer dizer isso?!—interrompeu Anna.—Tu bem sabes que eu não amo o Venceslau.

—Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse melhor...

—Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico e muito amavel?...

—E eu digo-te agora o contrario?

—Mas achas que o outro seria melhor...

—Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não calcula o que ha de vir pelo tempo além...