—Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira ouvir...
—Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...
—A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas da fé, e desce até ao inferno{142} abatida com o pezo das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto; é... tel-a eu amado.
Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente, soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:
—Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda, amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.
—Perdão, minha senhora!—balbuciou o galan, como quem não trazia mais diamantes no thesouro da memoria.—Perdão!
—Perdoei, porque... esqueci.
—Perdôa—volveu elle com alguma felicidade—perdôa, porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a feliz...
—Praza a Deus... mas... duvído.{143}
—Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a desmentirei...