Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:
—Teu marido é admiravel! Não tem graça, mas faz-me rir! Com que então tenho ares varonís! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a Portugal, vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria! Desconfia provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de Carlota Corday! Ai, filha, dize-lhe que não! Assevera-lhe que eu dou um grito pavoroso quando vejo uma carocha...—Continuou a casquinar e a dizer:—Estas más qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos olhos sem doçura, e nas palavras... sem quê? Não te lembras?... Ah! sem tom de mulher. Olha que injustiça, ó Annica! O timbre da minha voz é feio de fino que é; e os meus olhos, na opinião da gente que me faz favor de olhar para mim, são tristes e ternos. Não sei quem foi que me chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda hontem ao Venceslau Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelação de lagrimas. Vê tu, meu amor, que opiniões tão oppostas!
—Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?
—Que o Taveira me fazia a côrte?
—Isso... como adivinhas tu, feiticeira?—perguntou D. Anna maravilhada.
—Como adivinho eu!... Isto não é feitiçaria, é raciocinio.{157} Elle que diz que eu não posso amar, é porque sabe que os meus pretendentes indefiridos são muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito com quem fallo na presença de teu marido, este ha de ser por força o meu namorador rejeitado...
—Mas elle ama-te decerto?—contraveiu D. Anna Pimenta.
—Ó menina, a pergunta é seria?
—É, Lulu... Quem me déra vêr-te casada e tão feliz como eu sou!...
—És realmente feliz?...