—Porque duvídas?!
—Isto não é duvidar, minha filha... é o vivo jubilo que sinto quando me repetes todos os dias que o teu Eduardo é o ente digno de ti. Queres tu saber? Teu pae estava hontem triste e só na sala, quando eu entrei: Perguntei-lhe que tinha... e elle...
—Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar os meus annos. O papá observou-lhe que os annos de uma pessoa querida festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e estrondosas era cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os divertidos eram os de fóra. Eduardo ficou descontente; mas não respondeu. O que elle particularmente me disse não o soube o pae.
—Que foi?...
—Desculpa-me, Lulu... não t'o digo... prometti segredo...
—Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida{158} amiga. Foi uma inadvertencia que a tua amisade me releva... Mas então não me illudi... A tristeza do teu papá tinha relação comtigo; e por isso insisti em perguntar se...
—Mas—atalhou a filha do commendador—ias contar-me a respeito do Venceslau...
—Ah! sim... O Venceslau é um rapaz que merece ser admirado. É serio e melancolico. Tem certa graça contrafeita no rir, quando se alegra por condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e madureza intempestiva é artificio. N'elle, não. Eu sei o que é... A sua paixão é a politica; os seus namoros são os livros; a sua noiva é a Liberdade; e o seu céo ou inferno é a gloria. Homens assim não amam mulheres feminís nem mulheres varonís; podes dizer isto ao teu Eduardo. Dize-lhe mais que eu não repellí a declaração do Taveira. Ainda lhe não ouvi palavra que me assuste nem lisongeie...
—Mas se elle te dissesse que te amava?...—inquiriu com malicioso tregeito D. Anna.—Que fazias?
—Eu sei!... Forte aperto!—respondeu ridentissima D. Julia, a deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.