—E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah padre, padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por isso o tornam comparavel ao sol...—disse ella rindo com o consenso do clerigo que tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.

E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta vinha desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.

—Que é, filha!!—exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.

—Manda embora o capellão—disse-lhe ella ao ouvido.

O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no rosto de D. Anna.

A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril anciedade, disse entre soluços:

—Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar...{183} Depois que Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e achei, pela primeira vez, uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que elle corteja a tua prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar alguma carta d'ella...

D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e, posto que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal conflicto era má.

D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:

—Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto. Li-as, e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por uma mulher quem quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem essa carta é escripta; mas lê depressa, que eu quero ir repôl-a na gaveta antes que Eduardo venha da repartição.