Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe acclarou o destino, por estas palavras: Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me escreve—se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena ao criminoso que se suicide: será obedecida.
—Que quererá isso dizer?!—perguntou Anna.—Quem será essa innocente e esse criminoso?... E que ameaça lhe faria a tal mulher?... Podes decifrar isso?
—Eu não, filha... Que mysterio!...—balbuciou{184} Julia. E continuou lendo, e relançando a furto os olhos em toda a extensão da lauda, buscando perturbada alguma inicial que a denunciasse.
O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de prosa campanuda com muito lardo poetico de céos, infernos, furias, anjos precitos, archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre, golgothas, estrangulação de suicida, almas devastadas, arestas d'abysmos, e o mais que cabe nas cavernas lôbregas d'um peito romantico, onde uma vez entraram as novellas de Anna Radcliffe.
Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse enternecida:
—E tu que fazes agora, filha?
—Que hei de eu fazer?! nada...
—Então vaes fechar a carta onde a encontraste?
—Vou...
—E não dizes nada a teu marido?