O certo é que não ha vestigios de lagrimas, nem signaes d'uma grande mortificação. Vivia de emprestimos. Miguel Rodrigues Coutinho embargava-o na cadêa por dividas, e elle satyrisava o fero Miguel armado com a sua espada de fios seccos. Não cahia aquelle forte espirito a repellões de infortunio. Transigia com a desgraça como quem não póde queixar-se conscienciosamente da injustiça humana e da fatalidade das cousas. Arrostou os perigos de segundo encarceramento. A não se darem novos motivos, Camões não pudera ainda illibar-se da nota de peculato, quando o conde de Redondo lhe deu liberdade.

Os snrs. visconde de Juromenha e doutor Theophilo Braga, encarecendo a estima que o poeta grangeára com o vice-rei conde de Redondo, citam uma carta, escripta para o reino, em que o conde, fallando do expediente do seu governo, mostra a consideração que lhe merece Camões, n'esta passagem: «Remetto-me a S. Domingos, e mando tirar os prégadores do pulpito para que venham despachar commigo os feitos; agora me valho algum tanto do provedor-mór dos defuntos».

Este equivoco original do snr. visconde, como feição nova na historia de Camões, é disparatado pelas incongruencias que suggere. Como se ha de crêr que o vice-rei chamasse á mesa do despacho um ex-funccionario arguido de concussão no exercicio da provedoria de Macau, e ainda não julgado nem absolto, porque, segundo Pedro de Mariz, devia vir para o reino capitulado--accusado em capitulos, ou, como hoje se diria, pronunciado? Concedido ainda que o ouvidor geral de Gôa o absolvesse de ambas as vezes que foi preso--o que se não prova, porque a sua liberdade foi acto arbitrario e por ventura equitativo de dous governadores--como admittir que os magistrados se acamaradassem com o manchado ex-provedor dos defuntos no expediente dos negocios? Esta incompatibilidade facilmente se deslinda, e não viria a lume na obra erudita do snr. visconde de Juromenha, se ao versado escriptor occorresse que em Gôa havia um provedor-mór de defuntos e que esse devia ser o provedor a quem alludia o conde de Redondo. E, de feito, esse magistrado era o licenceado Christovão Ferreira, homem probo, consoante o testemunho do veador Simão Botelho de Andrade que, em carta de 30 de janeiro de 1552, dizia a el-rei D. João III: «... O ouvidor geral André de Mendanha é infamado n'esta terra acerca de peitas: póde ser que será mentira: e no mais do seu cargo parece que o faz bem: o provedor-mór Christovão Fernandes é muito bom homem, segundo dizem, se não é um pouco embaraçado no cargo: parece que havia de haver thesoureiro do dinheiro dos defuntos, porque será melhor despacho para as partes, e andará o dinheiro mais liquido e certo, quando o não houver de arrecadar a pessoa que houver de julgar[15]. O frade dominicano que o vice-rei chamava ao seu despacho era esse mesmo Simão Botelho das cartas austeras, que depois de ter sido muitos annos veador e capitão de Malaca, vestira o habito de S. Domingos, e assim mesmo era consultado por todos os vice-reis, e acompanhára D. Constantino na jornada de Jafanapatão, em 1560, arvorando á frente da hoste um Christo crucificado. Rodrigo Felner, prefaciando os escriptos ineditos de Simão Botelho, mostrou-se pezaroso por não saber o fim d'aquelle homem, «um dos mais illustrados do seu tempo, e alma incorruptivel». Facil era averigual-o, se buscasse na vulgar Chronica de S. Domingos, por frei Luiz Sousa, ou sequer em Diogo do Couto os ultimos actos de tão interessante personagem.

Outra hypothese que me não parece aceitavel:--a do provimento da feitoria de Chaul em Luiz de Camões pelo vice-rei D. Antão de Noronha. Achou o snr. visconde de Juromenha o alvará de Philippe I de Portugal que concede a Anna de Sá a tença de 15$000 reis que recebia o filho fallecido. Diz o alvará: ... havendo respeito aos serviços de Simão Vaz de Camões e aos de Luiz de Camões, seu filho, cavalleiro da minha casa e a não entrar na feitoria de Chaul de que era provido, etc. D'isto deprehendeu o biographo que Luiz de Camões fôra provido pelo vice-rei D. Antão de Noronha.

Camões não regressaria pobre, empenhado, vivendo do bem-fazer dos passageiros, se o vice-rei o provesse na vaga d'uma feitoria que avultava ao rendimento de 500 pardáos, com rendimentos e cargos annexos licitamente percebidos. Esse provimento lhe bastaria como hypotheca a adiantamentos e independencia relativa. A mim me quer parecer que a feitoria de Chaul lhe foi dada por provisão real depois da publicação dos Lusiadas, ao mesmo tempo que se lhe deu a tença, sob condição de residir na côrte. A condição de residencia seria inexplicavel d'outro modo. Logo que a feitoria vagasse, cessaria a tença. A condição inhibia-o de auferir a tença desde que exercesse o officio.

VI

A tença dos 15$000 reis, o apregoado escandalo da sovinaria dos ministros, não era, áquelle tempo, a miseria que se nos cá figura. Vejamos e comparemos os ordenados d'aquella época. O ordenado dos desembargadores do cardeal infante eram 30$000 reis, do copeiro-mór 6$000 reis, do vedor das obras 4$000 reis, do guarda-mór 13$000 reis, e do veador da fazenda 30$000 reis. As tenças de 30$000 reis eram apanagio de homens de muitos serviços.

Na conta de receita e despeza de 1557 vê-se que o regedor da justiça, 45 desembargadores, e os do paço que não eram poucos, e os da fazenda que eram muitos, todos juntos, receberam dos seus ordenados 3:777$800 reis. O governador da casa do civel, 24 desembargadores, 6 alcaides, 100 empregados e outros officiaes de justiça, todos juntos, receberam dos seus ordenados 1:664$200 reis[16]. Trinta annos depois, o numerario não estava mais barato, e os reis de tença de Camões haviam de parecer um excesso, um esbanjamento da fazenda nacional a qualquer d'aquelles desembargadores. Diogo Botelho, tão celebrado em Africa e Asia, recebia 12$000 reis de tença[17]. Luiz de Camões não se julgaria desdourado com os 15$000 reis, nem essas hypotheses de fomes, frios e mendicidades que se encarecem deve aceital-as a critica desligada de velhos preconceitos.

Eu creio tanto na mendicidade de Homero como nos peditórios nocturnos de esmola do Antonio de Java para sustentar Camões. Se o poeta chegasse ao extremo da penuria, acharia no refeitorio dos seus bons amigos dominicanos com quem tratava frequentemente a farta mesa que alli encontravam somenos benemeritos. Não me soffre o conceito que fórmo d'esse egregio espirito que elle quizesse a vida sustentada com tão desprimorosos expedientes. É a lenda da miseria em que se comprazem as imaginações sombrias. Porque elle pediu em verso uma camisa em Gôa, decidiram que o poeta não tinha camisa. Parece ignorarem que a dadiva d'uma camisa como ellas por esse tempo se presenteavam era um objecto caro e luxuoso. A fabula tecida sobre a fome de Camões originou-se talvez d'alguns poetas subalternos que entenderam desforçar-se da sua pobreza affrontando a nação que vira finar-se no desconforto o principe dos poetas da Hespanha. Consolavam-se assim com a camaradagem e vociferavam contra a ingratidão dos parvos. Espanta, porém, que se não clamasse com mais justiça contra os aulicos que deixaram morrer no hospital Antonio Galvão, o apostolo das Molucas, e Duarte Pacheco Pereira.

Não se póde ajuizar que os proventos do poema impresso lhe auxiliassem a vida. Os Lusiadas talvez lhe não surtissem o equivalente da tença nos oito annos da sua maior popularidade. Devia ser vagarosa a extracção da obra, attentas as calamidades d'aquelles annos--pestes, ameaças de guerra, pobreza do estado, corrupção de costumes, desavenças no paço, a preponderancia dos livros mysticos e o descahimento das letras profanas. A segunda edição do poema, no mesmo anno de 1572, em vista dos argumentos plausiveis do academico Trigoso[18], não é aceitavel nem sequer verosimil. Falsificaram retrospectivamente a data porque havia razão para recear que uma censura mais severa prohibisse nova edição sem os córtes das estancias que desagradaram á clerezia e á pudicicia d'uns velhos que poderiam, na verdura dos annos, ter assistido sem pejo ás chocarrices obscenas de Gil Vicente. Não se póde calcular quantos annos intercorreram da primeira á segunda edição; é, todavia, provavel que a segunda se fizesse em vida do poeta.