Luiz de Camões, se a vida se lhe prolongasse, teria mais abastada velhice. Philippe II de Castella, vindo a Portugal mezes depois da morte do poeta, perguntou pelo author dos Lusiadas. Não me consta que os reis naturaes, os legitimos, alguma hora perguntassem por Camões. O intruso concedeu á provecta mãi do poeta fallecido a tença que o filho recebia. Este procedimento, e a curiosidade benevola do usurpador é o unico acto honorifico que liga a biographia de Camões á dos monarchas. D. João III desterrára-o, D. Catharina e o cardeal desprezaram-o, D. Sebastião ouviria novas do seu poema, lêl-o-hia, e não impugnaria a concessão da tença e do officio na Asia. No desprezo, se não odio da rainha D. Catharina transpira a vingança do rancoroso Francisco Barreto contra quem Camões, livre dos ferros, dardejaria violentas, mas não injustas satyras. Barreto, chegado a Lisboa, vingou-se de quantos inimigos deixára na India. O bravo Gonçalo Falcão, que logo que elle sahiu do governo o desafiára a combate singular, foi mandado carregar de ferros e conduzir a Lisboa. Pôde fugir a tamanha ignominia o bravo de Jafanapatão, escondeu-se em Lisboa, e conseguiu ser absolvido, allegando que os duellos ainda não eram prohibidos pelo concilio tridentino, quando elle reptou Francisco Barreto. Não obstante, a rainha mandou-o riscar dos livros da nobreza e reduziu-o á miseria. D. Sebastião, volvidos annos, restituiu-o á capitania de Sofála, onde expirou apenas tomou posse. Barreto fanatisára a rainha brindando-a com uma pedra milagrosa que levou da India. O seixo tinha sete céos de côres diversas e uma figura de mulher com um menino no collo. Era Nossa Senhora, achada nas mãos d'um bonzo! Agua onde mergulhassem a pedra sarava muitas doenças; mulheres de parto muito bem pariam, assevera Miguel Leitão de Andrade na Miscellanea; e nas mãos da rainha o calhau fazia os mesmos milagres. A viuva de D. João III, além d'estes seixos milagrosos, gostava muito que os governadores do Levante lhe vendessem bem e pelo maior preço a pimenta. É o que ella pedia fervorosamente a D. João de Castro e aos outros vice-reis. A respeito de poetas e viajantes, dava tanto por Luiz de Camões como por Fernão Mendes Pinto--rivaes no infortunio, mas não iguaes no merecimento de melhor sorte. Os favores, embora apoucados, que Luiz de Camões recebeu da côrte são posteriores ás finaes desavenças de D. Sebastião com sua avó. Esse divorcio deu-se em 1571, e o alvará da tença é lavrado em 1572.
Não vituperemos Philippe I pelo desamor com que tratou os nossos escriptores. Não cahe a ponto aqui a lista dos talentos portuguezes protegidos pelos reis castelhanos, desde Diogo Bernardes, o moço da toalha, até Manoel de Sousa Coutinho, o incendiario da casa de Almada, que, depois de frade, offerecia a sua chronica ao terceiro dos usurpadores. Se Camões se bandearia em Castella como Gabriel Pereira de Castro, Caminha, Pereira Brandão e Côrte Real não sei; porém, quando o snr. Theophilo Braga me nomeia os amigos de Camões parciaes do prior do Crato, e entre elles está Miguel Leitão de Andrade, lembra-me se Camões, vivendo, seria tanto por D. Antonio como o preconisado Leitão de Andrade. Diz o snr. doutor Theophilo Braga na sua primeira Vida de Camões e repete na segunda, publicada ha dias, que o author da Miscellanea «esteve a ponto de ser degolado pelo invasor hespanhol». O snr. Braga entendeu a passagem do carnaz. Miguel Leitão esteve a pique de ser decapitado justamente porque fugia de D. Antonio para o usurpador Philippe. Elle mesmo o refere na Miscellanea, n'estes termos explicitos: No tempo que o snr. D. Antonio se levantou rei, me achei com elle em Lisboa, por não poder escusar servil-o, sendo fidalgo de sua casa. Porém, vendo entregar-se a fortaleza de S. Gião a Sua Magestade me pareceu ir-me para o dito senhor, e indo ja na Gollegan, a meu parecer fóra ja do perigo de morte a todos os que se fossem de Lisboa, a qual executava cruelmente Manoel da Silva fronteiro de Santarem, alli me prenderam, etc. E conta depois como pôde evadir-se pela latrina, e foi depois mais tarde a Madrid requerer com o traslado authentico dos trabalhos que passou para fugir. Tambem o snr. visconde de Juromenha conjecturou que Camões estivesse no Pedrogão, convidado por Miguel Leitão de Andrade quando foi desterrado para Riba-Tejo. Camões soffreu este desterro em 1546, e Miguel Leitão de Andrade nasceu em 1555. Não me parece aceitavel que Camões fosse visitar um sujeito que nasceu nove annos depois da visita. Que processos tão de palpite e phantasmagoricos tem usado estes doutos na biographia de Camões! Se não seria melhor estudar o assumpto!
Accusam os jesuitas de propulsores da jornada de Africa, porque aferventavam o zelo religioso do principe fanatisado contra a mourisma. Porque não accusam com maior justiça e sobre provas escriptas Luiz de Camões? Affirma o snr. Theophilo Braga que o poeta não sympathisava com a jornada d'Africa. Tanto sympathisava que, ao proposito da setta enviada pelo Papa a D. Sebastião, lhe escreveu uma epistola recheada de versos assignalados por uma virulenta rhetorica sanguinaria:
Já por ordem do céo, que o consentiu,
Tendes o braço seu, reliquia cara,
Defensor contra o gladio que feriu
O povo que David contar mandára,
No qual, pois tudo em vós se permittiu,
Presagio temos, e esperança clara,
Que sereis braço forte e soberano
Contra o soberbo gladio Mauritano.
....................................
Que as vossas settas são na justa guerra
Agudas, e entrarão por derradeiro
(Cahindo a vossos pés povo sem lei)
Nos peitos que inimigos são do Rei.
Está revendo a incitadora carta um coração que ainda vibra hostil como outr'ora o braço valoroso do mancebo que se estreára em Ceuta, Não se condemne Luiz de Camões por esse enthusiasmo; mas reservemos os louvores da prudencia discreta e previdente para o bispo Jeronymo Osorio e Martim Gonçalves da Camara. Se pretendem illibar Camões da nodoa quasi commum dos fidalgos--para que nos dizem que o alquebrado poeta escreveu bastantes estancias cantando, por hypothese, o regresso triumphal do coroado imperador de Marrocos? Essa mal estreada epopêa condiz á indole bellicosa de Camões--foi a ultima e mallograda explosão do seu patriotismo; todavia, é uma prova negativa do seu juizo politico. Emfim, sempre poeta e sublime poeta do amor e das batalhas, foi astro que refulgiu até ao occaso, apesar dos annos aggravados de doença, de necessidades supportadas com a impaciencia da velhice, e um pouco do fel do ciume d'outros poetas eleitos para cantarem a Iliada africana.
VII
Se Luiz de Camões, em pureza de costumes, condissesse com a sobr'excellencia do engenho, seria exemplar unico de talento irmanado com o juizo. Não se conciliam as regras austeras da vida serena e pautada com as convulsões da phantasia. Amores d'alto enlevo e de baixa estôfa, o ideal de Catharina de Athaide e as carnalidades das malabares e baiaderas levantinas--o exalçar-se a regiões de luz divina e o cahir nos tremedaes do vulgo--essas vicissitudes que a si mesmo fazem o homem assombroso em sua magestade e miseria, tudo isso foi Camões, e em tudo isso foi semelhante aos genios eminentissimos; mas nenhum homem como elle pôde redimir-se de suas fragilidades, divinisando os erros da imprudencia, fazendo-se amar nos extravios, e immortalisando-se em um livro que, ao fechar de tres seculos, alvoroça uma nação. É de nós todos esse thesouro legado por um homem que no dia 10 de junho de 1580 expirava na obscuridade. Elle teve de esmola a mortalha. Permitta a Providencia das nações que os Lusiadas não sejam a esplendida mortalha que Luiz de Camões deixou a Portugal.
[1] Por compra feita ao livreiro snr. Rodrigues, da travessa de S. Nicolau, em 1871.
[2] Nobiliario das gerações d'Entre Douro e Minho escripto por Manuel de Sousa da Silva. D'este genealogico nos dá noticia abonatoria D. Antonio Caetano de Sousa, no Apparato á Historia genealogica, pag. CLXIII: «Manuel de Sousa da Silva, filho de Antonio de Sousa Alcaforado e de sua mulher D. Isabel da Silva, filha de Duarte Carneiro Rangel. Foi capitão-mór do concelho de Santa Cruz de Riba Tamega: escreveu notas ao conde D. Pedro em um grande volume em folio que se conserva original da sua mesma letra na livraria de Luiz Carlos Machado, senhor de Entre Homem e Cavado. Escreveu em quintilhas os solares de todas as familias do reino manuscriptas, e um grande numero de titulos de familias com muita exacção porque viu os cartorios dos mosteiros antigos do Minho de que tirou muitas antiguidades para as familias de que tratou».
[3] Eufrosina. act. I, sc. VI, e act. II, sc. II.