D. João III, o rei-inquisidor, e piedoso por antonomasia, antes de fazer um filho em Isabel Moniz, fizera outro em Antonia de Berredo. Eram ambas de linhagem illustre. A primeira finou-se n'um convento da Guarda, sem ter visto seu filho Duarte que, aos 22 annos, morreu arcebispo de Braga. A segunda ficou na côrte, e achou marido de raça fina, sem embargo da concubinagem real, aggravada pelo acto da sua notoria fecundidade. A criança tinha morrido. Os nobiliaristas chamaram-lhe Manuel e occultaram-lhe o nome da mãi, visto que ella propagou altos personagens, sujeitos envergonhados.

Antonia de Berredo casára com um viuvo rico e velho, Antonio Borges de Miranda, senhor de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, que de sua primeira mulher, da casa de Barbacena, tivera dous filhos, a quem competia a successão dos vinculos. D. Antonia concebeu do marido, e deu á luz um menino que se chamou Ruy Borges Pereira de Miranda. O marido falleceu. Os filhos do primeiro matrimonio, Simão Borges e Gonçalo Borges foram esbulhados da successão dos vinculos--um estrondoso escandalo em que influiu o arbitrio despotico do rei a favor do filho da sua amante[2].

Apossado iniquamente dos senhorios de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, Ruy Borges, filho de Antonia de Berredo, affeiçoou-se a D. Catharina de Athaide, filha de Alvaro de Sousa, veador da casa da rainha, senhor de Eixo e Requeixo, nas visinhanças de Aveiro. D. Catharina era pobre, como filha segunda; seu irmão André de Sousa era um simples clerigo, prior de Requeixo; o senhor da casa era o primogenito Diogo Lopes de Sousa.

D. Catharina aceitára o galanteio do poeta Luiz Vaz de Camões, talvez antes de ser requestada por Borges de Miranda. O senhor de Ilhavo, rivalisado pelo juvenil poeta, sentia-se inferior ante o espirito da dama da rainha. Seria um estupido consciente; queixou-se talvez a mãi. Não é de presumir que a mulher de D. João III se aviltasse protegendo o galanteio repellido do filho da Berredo--amante notoria de seu marido; mas é natural que a mãi de Ruy Borges recorresse directa e clandestinamente ao rei solicitando o desterro do perigoso émulo de seu filho. Assim pôde motivar-se o primeiro desterro de Camões para longe da côrte, e o segundo para Africa em castigo da teimosia d'elle e das vacillações de Catharina de Athaide na aceitação do opulento Ruy Borges,--vacillações transigentes com a riqueza do rival do poeta pobre, a meu vêr. A dama não seria muito escoimada em primores de fidelidade. Das damas da côrte de D. João III, dizia Jorge Ferreira de Vasconcellos: «todas são mui próvidas em não estarem sobre uma amarra por não ser como o rato que não sabe mais que um buraco»--e talvez pensasse em Camões quando escrevia: «Elle cuida que por discreto e galante ha de vencer tudo: eu quizera-lhe muito mais dinheiro que todas suas trovas, porque este franqueia o campo, e o al é martellar em ferro frio[3]».

Sahiu Camões para a Africa em 1547, e lá se deteve proximamente dous annos. Quando regressou, a dama da rainha era já casada com Ruy Borges e vivia na casa do esposo convisinha de Aveiro, entregue ao ascetismo, sob a direcção de frei João do Rosario, frade dominicano.

Subsistem umas Memorias communicadas a Herculano em 1852, e datadas em 1573 por aquelle frade, nas quaes o confessor revela que D. Catharina, quando elle a interrogava ácerca do desterro de Camões por sua causa, a esposa discreta de Ruy Borges respondia que não ella, mas o grande espirito do poeta o impellira a empresas grandiosas e regiões, apartadas. Esta resposta, um tanto amphibologica, argue e justifica o honestissimo melindre da esposa.

Se respondesse: «fui a causa de seu desterro», daria testemunho menos nobre de sua ingratidão, e teria de córar como esposa voluntaria de Ruy Borges, como treda amante do desditoso poeta, e ainda como filha espiritual do frade nimiamente indagador que varias vezes e indelicadamente a interrogava sobre o caso melindroso: E todas las vezes que no poeta desterrado por saa rasão lhe falava...--escreve frei João do Rosario.

O arrependimento, o tedio e a saudade não a mortificaram longo tempo. Morreu Catharina de Athaide em 28 de setembro de 1551, e foi sepultada na capella-mór que dotára no mosteiro de S. Domingos d'Aveiro em sepultura que talvez mandasse construir.

Camões não ignorava a tristeza raladora de D. Catharina. Este soneto exprime o sentimento d'uma vingança nobre até ao extremo de compadecida:

Já não sinto, senhora, os desenganos
Com que minha affeiçao sempre tratastes,
Nem vêr o galardão, que me negastes,
Merecido por fé ha tantos annos.
A mágoa choro só, só choro os damnos
De vêr por quem, senhora, me trocastes!
Mas em tal caso vós só me vingastes
De vossa ingratidão, vossos enganos.
Dobrada glória dá qualquer vingança,
Que o offendido toma do culpado,
Quando se satisfaz com causa justa;
Mas eu de vossos males a esquivança
De que agora me vejo bem vingado,
Não a quizera tanto á vossa custa.