Semelhante soneto dirigido á outra D. Catharina de Athaide, dama do paço que morreu solteira, não tem explicação. Claro é que Luiz de Camões allude á mulher que o vinga padecendo as mágoas resultantes d'uma alliança em que elle foi ingratamente sacrificado. Á outra dama que morreu, estando para casar, segundo a versão colhida pelos primeiros biographos, não diria Camões:

... a vingança
Não a quizera tanto á vossa custa.

Como o vingaria ella, desconhecendo as tristezas de casada que não chegou a ser? Era mister que se désse mudança de vida irremediavelmente afflictiva e remordida de arrependimento para que o poeta se ufanasse de vingado,--e tanto que implicitamente lhe perdôa. O soneto que trasladei não attrahiu ainda notavel reparo d'algum biographo, sendo a pagina mais para estudo nos amores de Camões. Antes do generoso soneto, quando a julgava contente, Camões exprimia-se de mui diverso theor. O ciume, o despeito e a cólera desafogára n'outros versos perdoaveis á dôr, mas somenos fidalgos. Chamou-lhe cadella.

O viuvo Ruy Borges passou logo a segundas nupcias como quem procura em outra mulher a felicidade que não pudera dar-lhe a devota Catharina absorvida no mysticismo, como n'um refugio aos pungitivos espinhos da sua irremediavel ingratidão.

O poeta grangeára inimigos na côrte. Deviam ser os Berredos e os parentes de Ruy Borges de Miranda. Entre os mais proximos d'este havia um seu irmão bastardo, Gonçalo Borges, criado do paço, a cargo de quem corria a fiscalisação dos arreios da casa real. Teria sido esse o espia, o denunciante das clandestinas entrevistas do poeta com a dama querida de seu irmão?

Em maio de 1552, Gonçalo Borges curveteava o seu cavallo entre o Rocio e Santo Antão, no dia da procissão de Corpus-Christi, em que se mesclava um paganismo carnavalesco de exhibições mascaradas. Dous incognitos de mascara enxovalharam Gonçalo Borges com remoques. Houve um reciproco arrancar das espadas. N'este comenos, Luiz de Camões enviou-se ao irmão de Ruy Borges e acutilou-o no pescoço. O golpe, segundo parece, era a segurar; mas não deu resultados perigosos para o ferido. Camões foi preso; e, ao terminar um anno de carcere, solicitou perdão de Gonçalo Borges que, voluntario ou coagido por empenhos, lhe perdoou, visto que não tinha aleijão nem deformidade. A Carta de perdão, produzida pelo snr. visconde de Juromenha, é datada em 7 de março de 1553, e está integralmente copiada[4].

Dias depois, Luiz Vaz de Camões sahia para a India, na mesquinha posição de substituto d'um Fernando Casado, e recebia 2$400 reis como todos os soldados razos que embarcavam para o Oriente; e para isto mesmo prestou a fiança de Belchior Barreto, casado com sua tia. Aquelles 2$400 reis eram o primeiro quartel dos 9$600 reis, soldo annual do soldado reinol.

Expatriou-se na humilhação dos mais desprotegidos. Devia de ter alienado a estima e o favor de amigos influentes, porque sahia do carcere rebaixado pelo desbrio com que implorára o perdão, e réo confesso de uma vingança por motivos menos honestos aos olhos dos velhos serios, e desdourados na propria fidalguia pelas ribalderias amorosas d'um mancebo de nascimento illustre. Se Luiz de Camões embarcasse para a India como o commum dos mancebos fidalgos, receberia 300 ou 400 cruzados de ajuda de custo.

A familia Camões, no reinado de D. João III, esteve relegada da consideração da côrte. O mais notavel d'essa familia, o cruzio D. Bento, prior geral da sua Ordem, gozou apenas a prelazia monastica, mas sem influencia civil d'alguma especie. Simão Vaz de Camões, parente do poeta, senhor d'um morgado mediano, era, por esse tempo, um libertino espiado pela justiça, deshonrado por delictos graves e allianças matrimonialmente ignobeis. Os outros ramos vegetavam obscuros; e alguns d'essa familia que militaram na Asia não alcançaram alguma qualificação notavel nos minuciosos annaes de Graspar Corrêa. Diogo do Couto nem sequer os nomeia.

No reinado de D, João II, Antão Vaz, avô do poeta, casára com D. Guiomar da Gama, parenta de Vasco da Gama, a quem seguiu á India, capitaneando uma caravela, talvez escolhido por Vasco, em attenção ao parentesco. O heroe dos Lusiadas enviou Antão Vaz embaixador ao rei de Melinde, a comprimental-o, a levar-lhe presentes e a concertar as pazes[5]. Luiz de Camões, com rara modestia, omitte o nome de seu illustre avô; dá-lhe, porém, predicados d'elegancia oratoria, e compraz-se em o fazer discursar largamente. Na dilação do discurso transluz uma licita vaidade. Vasco