Manda mais um, na pratica elegante,
Que co'o rei nobre as pazes concertasse;
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Partido assi o embaixador prestante,
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Com estylo que Pallas lhe ensinava,
Estas palavras taes fallando orava[6].
Nenhum biographo, que me conste, aproximou ainda a passagem do poema do nome do embaixador Antão Vaz. Verdade é que João de Barros, Damião de Goes e o bispo Osorio escondem o nome do enviado; e a maioria dos biographos não conheceu os mss. de Gaspar Corrêa, nem consultou senão os expositores triviaes. Antão Vaz, como se lê n'outros trechos d'aquelle prolixo chronista, é sempre o preferido nas mensagens em que é essencial o discurso. Conhece-se que Vasco da Gama o reputava efficaz no dom da palavra. Passado o anno 1508 não tenho noticias d'elle, nem sei que se avantajasse no posto com que sahiu do reino, commandante de caravela, em 1502. Provavelmente não «fez fazenda», como lá se dizia na Asia, ou porque tinha espiritos por demais levantados da terra nas azas da eloquencia, como se deprehende do conceito do neto, ou porque pertencia á raça ainda generosa e desinteresseira dos primitivos soldados do Oriente. O certo é que a sua descendencia, filho e neto, não inculcam herdar-lhe os haveres.
III
Posto que na Carta de perdão se diga que o pai do soldado, Simão Vaz de Camões, cavalleiro fidalgo, morava na cidade de Lisboa, isto não affirma que elle, no anno em que o filho embarcou, alli residisse. Simão Vaz estanciára muito pela India, e possuíra em Baçaim, em 1543, a aldêa de Patarvaly que D. João de Castro, o vice-rei, lhe aforára por 60 pardáos[7]. Estes aforamentos eram vitalicios e concedidos como remuneração de serviços a fidalgos pobres, porque, dizia o vice-rei, não dispunha d'outra moeda. Fallecido D. João de Castro, os governadores subsequentes Garcia de Sá e Jorge Cabral, insinuados por D. João III, que já vivia do expediente de emprestimos, annullaram as concessões do vice-rei como nocivas aos interesses da monarchia. A aldêa de Patarvaly foi reivindicada para a corôa, e a fortuna de Simão Vaz manifestou-se na pobreza da sua viuva e do seu filho unico.
Pedro de Mariz e a serie de biographos mais antigos testificam que Simão Vaz, tendo naufragado em terra firme de Gôa, a custo se salvára e morrera depois n'esta cidade. Ora, em 1552, a nau Zambuco varou no rio de Seitapor, a trinta leguas de Gôa, salvando-se a tripolação. Seria essa a nau em que Simão Vaz de Camões ia novamente no engodo da fortuna esquiva? Se era, em março de 1553, quando Camões sahiu do carcere, a morte de seu pai não podia ainda saber-se em Lisboa. É certo que, nas Lendas de Gaspar Corrêa e Decadas de Couto, o nome de Simão Vaz é inteiramente desconhecido. Seja como fôr, é necessario expungir da biographia de Luiz de Camões um Simão Vaz, residente em Coimbra, primo do poeta, que o snr. visconde de Juromenha por desculpavel equivoco da homonymia reputou pai de Luiz, descurando as inducções da chronologia e todas as provas moraes que impugnam semelhante parentesco.
Das poesias de Camões nada se deprehende quanto aos seus progenitores. Em toda a obra poetica e variadissima do grande cantor não transluz frouxo sedimento filial,--nem um verso referente ao pai. Em todos os seus poemas escriptos na Africa e Asia, na juventude e na velhice, não ha uma nota maviosa de saudade da mãi. Os poetas da renascença tinham esse aleijão como preceito de escóla. Desnaturalisavam-se da familia, da trivialidade caseira para se inaltecerem ás cousas olympicas. Gastavam-se na sentimentalidade das epopêas e das eclogas. O amor da familia, se alguma hora reluz, não é o da sua--é o das familias heroicas. Apaixonavam-se pelo mytho, e timbravam em nos commoverem com as desgraças de Agamemnon ou Nióbe. Isto não desdoura a sensibilidade do cantor de Ignez e de Leonor de Sá; mas vem de molde para notar que do poeta para com seus paes não se encontra um hendecasyllabo que lhe abone a ternura. O mesmo desamor se verifica em todos os poetas coevos, quer epicos, quer lyricos. Só uma vez em Diogo Bernardes se entrevê tal qual affecto de familia a um irmão que professa na Arrabida, e em Sá de Miranda a um filho e á esposa mortos: mas de amor filial é escusado inquirir-lhes o coração nas rimas. Parece que o haverem sido um producto physiologico do preceito da propagação os isentava de grandes affectos e respeitos a quem os gerou. Não os escandecia em raptos poeticos essa vulgar e material alliança de filhos a paes.
IV
Luiz de Camões achou-se bem, confortavelmente em Gôa. As suas cartas conhecidas não inculcam nostalgia, nem a estranheza dolorosa do insulamento em região desconhecida. Rescendem o motejo, o sarcasmo e a vaidade das valentias. Não se demora a bosquejar sequer, com séria indignação, o estrago, a gangrena que lavrava no decadente imperio índico pelos termos graves de Simão Botelho, de Gaspar Corrêa, Antonio Tenreiro, Diogo do Couto e dos theologos. Narra de relance e com phrases jocosas as façanhas d'esses ignorados acutiladiços, as basofias de Toscano, a moderada furia de Calisto, e as proezas do duellista Manuel Serrão. Era este Serrão um ricaço de Baçaim, senhor de quatro aldêas, que fizera desdizer um bravo da alta milicia. Comprazia-se Camões n'estas historias façanhosas, chasqueando os pimpões de lá e os de cá, uns que nunca lhe viram as solas dos pés por onde unicamente podiam vulneral-o como ao heroe grego. Acha-se tranquillo como em cella de frade prégador, e acatado na sua força como os touros da Merceana. Preoccupava-o fortemente a bravura. Como a metropole da India portugueza, não havia terra mais de feição para chibantes. Escrevia Francisco Rodrigues da Silveira: «Dentro em Gôa se cortam braços e pernas e se lançam narizes e queixadas em baixo cada dia e cada hora, e não ha justiça que sobre o caso faça alguma diligencia: dando por razão que o não permitte a India, porque cada qual pretende satisfazer-se por suas mãos de quem o tem aggravado[8]».
Depois, as mulheres. As portuguezas cahem de maduras, ou porque a lascivia as sorvou antes de sazonadas, ou porque vem ao chão de velhas:--é opiniativa a intelligencia do conceito picaresco. As indigenas são pardas como pão de rala, tem uns palavriados que travam a hervilhaca, e gelam os mais escandecidos desejos. São carne de salé onde amor não acha em que pegue. Lembra-se das lisboetas que chiam como pucarinho novo com agua, e manda-lhes dizer que, se lá quizerem ir, receberão das mãos das velhotas as chaves da cidade. De envolta com estas prosas facetas, envia um soneto e uma ecloga funebres á morte d'um amigo.
Esta carta encerra a nota melancolica d'uma phrase de Scipião: Patria ingrata, não terás meus ossos. Mas a comparação, para não ser um dislate d'orgulho, era de certo um gracejo de Luiz de Camões. Que lhe devia a patria em 1553? Elle tinha 30 annos; escrevera poemas lyricos excellentes, apenas louvados na roda dos palacianos e dos menos cultos. Ferreira e Sá de Miranda parece que não o conheciam. O bravo que sahira do carcere com perdão de Gonçalo Borges a quem golpeára o cachaço, ou o toutiço, como disseram os physicos do exame, em verdade, confrontando-se com Scipião Africano, ao desterrar-se, não primava em pontos de modestia. O seu avantajado e indiscutivel direito á gratidão da patria era um poema começado apenas, ou talvez ainda não tracejado. Camões tem ante si dezeseis annos para pleitear com Vasco da Gama a imperecedoura glorificação que lhe prepara. A patria desconhecia ainda o seu grande acrédor que se estava germinando no cerebro potentissimo d'aquelle seu filho--unico filho que todas as nações cultas conhecem, e o maximo na immortalidade que tem de sobreviver á terra que cantou.