Os feitos valorosos de Luiz de Camões na Asia não tiveram a notabilidade que os chronistas do Oriente e de D. João III deram a lances insignificantes de homens obscuros. O diffuso author das Decadas, Couto, apenas o nomeia n'uma crise de pobreza convisinha da mendiguez. Os antigos biographos e commentaristas não o condecoram como quinhoeiro nos fastos das carnificinas memorandas. Seria grande elogio á primorosa probidade de Camões o excluil-o d'esses canibalismos, d'essa

...... bruta crueza e feridade,

como elle invectiva na estancia XCIX do canto IV.

Mas entrevejo na cerração de tres seculos que o poeta, na apotheose do Albuquerque terrivel e do Castro forte--elaborando a epopêa que sagrou em idolatria de semi-deuses uma phalange de piratas, escrevia com as mãos lavadas de sangue innocente do indio, a quem apenas os conquistadores concediam terra para sepultura como precaução contra a peste dos cadaveres insepultos, quando não exhumavam as ossadas dos reis indigenas na esperança de que lh'as resgatassem com aljofar e canella[9]. Façanhas de Camões não sei decifral-as nos seus poemas: elles--os poemas--só per si sobejam na sua historia como acções gloriosissimas.

V

As suas composições satyricas aos festejos do governador Francisco Barreto parece-me que nunca seriam vistas dos offendidos nem explicam odios desnecessarios á motivação dos infortunios do poeta. Esse papel em prosa chegou a Portugal, incluso na carta que vinha com a candeia na mão morrer nas mãos do amigo[10]. Os disparates na India não offendem, não individualisam, nem exprimem nitidamente a feição social. São banaes. O desterro para Macau é uma lenda. Não se desterra um inimigo desprotegido e desvalido com uma provedoria, cujo triennio afiançava uma riqueza relativa.

Provedor dos defuntos e ausentes de Macau, Luiz de Camões fruía abundantes recursos para trabalhar com socego, despreoccupado, estudando a historia e a geographia asiatica nas Decadas de João de Barros, ao passo que sinzelava de primorosos lavores a epopêa architectada. O poeta gastava á medida dos proventos e talvez o que licitamente podia dispensar sem menoscabo da sua rectidão. Mariz culpa-o de demasias nas liberalidades comsigo e com os outros: Gastador, muito liberal e magnifico, não lhe duravam os bens temporaes mais que em quanto elle não via occasião de os despender a seu bel-prazer. Mas nem a enchente de bens que lá grangeou (em Macau) o pôde livrar que em terra gastasse o seu liberalmente, e no mar perdesse o das partes em um naufragio que padeceu terrivel[11].

Sem umas intermittencias de estouvanice dissipadora, e destemperada desordem de costumes, Camões seria a excepção do genio. Tem o talento transcendente crises vertiginosas, doudices sublimes que o extraviam da pauta do bom viver. Elle apreciava mais os gozos, a magnificencia, as commoções do que os pardáos amuados na arca. Sabia que o arranjar dinheiro na India era facil, excluidos os escrupulos. Disse-o elle: Os que se cá lançam a buscar dinheiro, sempre se sustentam sobre agua como bexigas; mas os que sua opinião deita á las armas Mouriscote como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que amadureçam se seccam[12]. Parece pois que não procedeu com o espolio dos defuntos e o direito dos ausentes de modo mais zeloso e exemplar que o commum dos provedores das cidades asiaticas.

Os politicos organisadores e residentes na India aconselhavam D. João III que nomeasse thesoureiro privativo para o espolio dos mortos, e obstasse a que os dinheiros passassem pelas mãos dos provedores. Logo citarei um exemplo d'esse alvitre que foi grande parte na accusação que Luiz de Camões soffreu como delapidador dos espolios.

Accusado e chamado a Gôa, sob prisão, pelo governador Francisco Barreto, antes de fechado o triennio da sua provisão, naufragou e perdeu os haveres proprios e os alheios de que lhe pediam conta. Recolhido á cadêa, instaurou-se-lhe processo para o capitularem e remetterem ao reino. Raramente, porém, os capitulados por culpa d'essa especie vinham ao reino.