XXVI
A outra metade

Quando este corpo meu esfacellado
Baixar á leiva humida da cova,
Hão-de os jornaes carpir a infausta nova,
Taxando-me de sabio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a resurgencia d'um Canova,
Que a morta face em marmore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas phrases nunca vistas:

«Esse genio immortal, rei dos artistas,
«No ceu pede ao Senhor que a outra metade
«Reparta por vossês, ó jornalistas!»

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XXVII
Comedia humana

Litteratos! chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha tactica!
Se acaso tendes crimes em grammatica,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a proza inflada, emphatica,
Com que choraes os mortos; e o maligno
Desaffecto aos que vivem... Não me indigno...
Sei o que sois em theoria e em practica.

Quando o avô d'esta vã litteratura
Garrett, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim...