No soneto XVI d'esta collecção, dirigido ao sr. conselheiro e ministro d'estado honorario Thomaz Ribeiro, a posteridade, louvando o caracter honesto d'este funccionario, invectiva indirectamente a probidade de muitos comtemporaneos d'aquelle honrado secretario d'estado. Os versos dignos de reparo são estes:
«Dirão de ti as porvindouras eras:
«Ministro pobre em Portugal!... Chimeras!
«Ou viveu farto, ou nunca foi ministro..»
Eu já respondi á posteridade injusta nas[{8}] paginas d'um livro provavelmente esquecido: «Maria da Fonte:»
«O bispo de Vizeu, algumas vezes ministro, quando estava no poder, cedia os rendimentos da mitra e não podia sustentar dois sobrinhos em Coimbra por falta de meios; e por sua morte, o espolio da guarda-roupa prelaticia eram dois pares de calças, umas muito no fio, outras com fundilhos. Antonio Rodrigues Sampaio um luctador de meio seculo, legou á sua familia um miseravel monte-pio. O conde de Thomar estava pouco menos de pobre quando o conde de Ferreira lhe legou cem contos. E a alma immaculada do gentilissimo duque de Loulé? E o austero duque d'Avila encouraçado de commendas e cruses para que o demonio dos maus pensamentos lhe não penetrasse no peito? E Rodrigo da Fonseca, rival de Passos Manuel no desinteresse? E Fontes[{9}] Pereira de Mello, invulneravel em pontos de honra, como Anselmo Braamcamp? Antonio de Serpa, Mendes Leal e Andrade Corvo, quando deixaram de ser ministros iam ganhar a sua vida no jornalismo e no magisterio, e saldar com esses mesquinhos salarios as suas dividas contrahidas no poder. E Lobo d'Avila, um destro gymnasta do talento que se tem dado por bem pago com a benemerita reputação de muito esperto? E Latino Coelho? um ministro que, em materia de ladroagem, só correu eminente risco de ser roubado nos diamantes do seu estylo, se se demorasse no gabinete a ler e a subscrever portarias bordalengas? E o lovelaciano Barjona, grande salteador de corações incautos e mais nada? Não se viu Thomaz Ribeiro, quando largou segunda vez a pasta, abrir escriptorio de advogado? E Lopo Vaz, que tem sahido do governo mais illibado e[{10}] menos martyr do que sahiu do governo da India outro Lopo Vaz, seu problematico avô? Pinheiro Chagas escreve correspondencias para o Brasil e artigos avulsos nos jornaes litterarios afim de conservar a velha freguezia dos seus admiradores. José Luciano de Castro acinge-se ás restricções de uma austera parcimonia, para educar os filhos com o seu patrimonio. Ao Conde de Casal Ribeiro perguntem-lhe por metade dos seus haveres!
*
* *
Outro soneto que remetti ao meu amigo Thomaz Ribeiro era acompanhado de algumas quadras significativas da conformidade com que eu me recolhi ás minhas trevas como d'antes ao meu gabinete de trabalho cheio de luz.
A imprensa jornalistica, transcrevendo[{11}] essas singelas coplas, revelou, de par com o sentimento da commiseração, uma especie de contentamento pela ressurreição da minha alma n'este mundo escuro em que a saudade da luz faz o milagre de me representar por momentos as coisas tragicas e as risonhas da minha vida passada.
Aqui estão as quadras que eu não posso estremar dos outros versos meditados na minha longa e já agora perpetua escuridade.
A Thomaz Ribeiro
Se cá vens jantar, meu anjo!
Dou-te o esplendido soneto,
Que n'esta data remetto,
E talvez te faça arranjo.