Uma prenda caprichosa
Dá-se em mim e não t'a nego:
É que depois que estou cego,
Já não sei fallar em prosa.[{12}]

Tem delicias esta cruz
Feita de pranto e poesia!
Ah! que estranha anomalia...
Quanto mais trevas mais luz!

Homero, Milton, Castilho,
Portentos d'inspiração,
Acharam na escuridão
Sóes d'eterno e immenso brilho.

Poetas epicos d'Iliadas
Temos duzias; mas eu colho
Que tinha apenas um olho
O que escreveu os Lusiadas.

Quando regressou da Persia,
Um perfeito proletario!
Touxe um olho solitario
Sempre a chorar por Natercia.

Tivesse elle olhos normaes,
Com algumas Inscripções,
Faria chilras canções
Sonetos e madrigaes.

Assentemos sem refolhos
Que não seria o cantor
Do feroz Adamastor
Se possuisse os dois olhos.[{13}]

Por que Deus, quando escurece
A luz brilhante de fóra,
Faz repontar nova aurora
Dentro d'alma que amanhece.

Seja pois abençoada
A Providencia divina
Que apagando-me a retina
Me fez da treva, alvorada!

Se eu tiver um cenotaphio,
Em que caibam tres palavras,
A ti te rogo que as abras
Com este humilde epitaphio: