Umas pessoas, depois que ouviram a nova, sorriram, como vencidas de tentação deliciosa, e comeram carnes. Outras, invulneraveis e inflexas na sua abstinencia, martyrisaram-se com trutas e salmões. Como quer que fosse, houve escandalo. Comeu-se volateria e ruminantes em sexta feira. Algumas consciencias sahiram do baile do snr. visconde, ás 8 horas e meia da manhã, com o peso do estomago sobre si.
A opinião publica, já em Guimarães, já em Braga, ergueu-se á altura dos principios, e murmurou. Eu fiz parte d'esta opinião adversa ao magistrado superior do districto a quem corre o dever de penitenciar os seus hospedes com trutas e salmão em dias de peixe, em memoria dos augustos mysterios do christianismo.
Quanto a mim, o snr. visconde era um atheu e os seus hospedes uma cafila de heresiarcas. Eis senão quando a imprensa do Porto divulga uma noticia que bafejou um halito de jubilo na face de Braga, no perfil de Guimarães, e nos tres quartos do paiz. Apresso-me a repetil-a em grifo com uma consolação catholica, e tanto ou quê apostolica: O snr. visconde de Margaride tinha obtido dispensa do prelado bracharense para que os seus hospedes podessem comer carne.
Orvalhe-se de lagrimas de alegria o rosto da christandade portugueza; que eu por mim, quanto um abraço cabe nas potencias da phantasia, aqui aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, e felicito os catholicos que digeriram innocentemente as suas vitualhas.
A RIVAL DE BRITES DE ALMEIDA
A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á incredulidade da critica, abordoando-se ás muletas do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada referem os historiadores das apostas e porfias dos cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a forneira matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou prostrados de fadiga, isso, que não póde ser honroso porque é vil, aprendem-o as crianças, e repetem-o adultos com desvanecimento e orgulho. Por honra da minha patria, quero crêr que a lenda da padeira de Aljubarrota é tão authentica e verdadeira como a do caldeirão de Alcobaça, apresado no arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me honras de Niebuhr n'esta cousa do caldeirão de Alcobaça.
Houve outra heroina, mais digna de lembrança, e, todavia, ignorada. Essa praticou um feito de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o inimigo, e derrubando-o.
Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados pelo marquez de Sarria, invadiram Portugal pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade de Miranda foi das terras d'aquella provincia a que mais soffreu as arremettidas do exercito invasor. Alli perto, passa o rio Fresno, cujas margens se communicam por uma ponte. Na extrema esquerda d'esta ponte vivia uma mulher casada, cujo marido se alistára nas guerrilhas dispersas pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete de hespanhoes, com seu sargento, passou a ponte do Fresno. O sargento viu a mulher do guerrilheiro, que era a mais esbelta e donosa moça da comarca. Postou os soldados de atalaia a pequena distancia da ponte, e voltou de noite, acompanhado de dous, com o proposito de se fazer amar da aldeã por meio do assalto.
Este sargento, em tempo de guerra, não usava das artes maviosas do seu patricio Tenorio. Em vez da guitarra e da escada de corda, fiava na suspensão das garantias, na quebra do direito internacional, na cronha da escopeta, e na pujança de seis rijas espadoas atiradas á porta d'aquella Elvira montezinha.