--Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer não.

O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados e disse:

--A praça rende-se.

D'ahi a minutos, abriu-se a porta da rua.

O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para a testada da porta, e desfechou um arcabuz em um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez, ao cahir morto, levava debaixo de si um dos dous com uma navalha hespanhola embebida nas entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros, mas sómente o tempo indispensavel para que ella o varasse do peito ás costas com o espeto da cozinha.

Depois, como sentisse o tropel da soldadesca, travou do marido, desceu por um algar escuro e pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de afflicção, quando conheceu que levava um cadaver. Ao romper da manhã, galgou á cumiada da serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido, e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha, que os soldados castelhanos haviam queimado.

Nada mais se sabe d'esta mulher. Não consta, sequer, que o governo de D. José I lhe mandasse reconstruir o casebre, acabada a guerra.

Houve um poeta contemporaneo, que a descantou em um soneto jocoso, avantajando-a á Brites de Aljubarrota. As musas sérias não acharam a heroina digna de poesia grave.

E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o conheceria, se lh'o não publicassemos aqui, precedido de um interrogatorio académico:

Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota, matando os castelhanos com a sua pá; ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o sargento castelhano com o espeto?