D. JOÃO III, O PRINCIPE PERFEITO
Não me recordo se os chronistas d'este rei nos contam que os resplendores da graça divina lhe aureolaram o rosto, quando a alma se desatou d'aquella infame caverna, e foi receber o galardão dos milhares de hebreus queimados em obsequio á religião da fé, esperança e caridade. O snr. A. Herculano capitula este rei de fanatico, ruim de condição e inepto; mas isto não faz implicancia á salvação do monarcha, antes a confirma; porque o grande historiador, sabendo como se fazem optimos livros, de certo ignora os processos da formação da glottica e dos santos. Afóra isto, sabe tudo, excepto que D. João III, quando expirou, causava medo aos que lhe viram a horrendissima cara.
As pessoas medianamente cultas não ignoram que houve um frade de grandes virtudes e letras chamado frei Thomé de Jesus, da ordem de Santo Agostinho. D. Sebastião o levou comsigo á batalha de Alcacerquibir. Não sabemos se o frade pelejou; mas temos de certeza que ficou ferido, captivo, e encarcerado nas masmorras de Maquinez. Transferido para Marrocos, por diligencia do embaixador de Portugal, rejeitou o resgate, que seus irmãos, fidalgos de primeira plana, lhe offereceram, preferindo a escravidão alli onde eram muitissimos os captivos carecidos de confortações e exemplos de paciencia. E, ao cabo de quatro annos de servidão, morreu em Marrocos, aos 17 d'abril de 1582, na idade de cincoenta e tres annos, legando-nos um livro lá escripto e muito apreciado com o titulo Trabalhos de Jesus.
D'este escriptor mystico possuimos uma carta inedita, motivada pelo trespasse de D. João III, e escripta desde Lisboa a certa communidade religiosa. O esclarecido bibliographo F. Innocencio da Silva sente que esta carta, principiada a imprimir no Murmurio, periodico bracharense, ficasse incompleta. Nós, que tambem possuimos d'ella um traslado da mão de D. fr. Manoel do Cenaculo, arcebispo de Évora, vamos dal-a integral e textualmente, na certeza que revivemos um documento historico, lavrado por testemunha presencial, e, além d'isso, por um dos mais abalizados escriptores do seculo aureo da lingua portugueza.
Reza assim:
«Amantissimos Padres. O Spirito Sancto cosolador, e emparo dos atribulados console suas almas, que creio estarão já com a dor, que nós temos da morte de nosso Pai, Rei, e Senhor, taõ supita, e taõ inopinata, como foi, e lhes dê o emparo espiritual de sua graça, e temporal de cabeça tal, qual foi a que perdemos. Amen.
«Ainda que creio, que já teraõ a certeza da morte del Rei Nosso Senhor, porem por mo mandar nosso Padre, e eu o ter já assim determinado de fazer, e porque muitas cousas se dizem lá, e cá, que naõ foraõ assim, pera saberem a certeza do que passa lhes quero contar por ordem tudo: ainda que folgára eu muito de ter antes perdidas as virtudes, e forças naturaes do corpo, que te-las pera aver de escrever o que agora ouvirão.
Quarta feira infra octavas Penthecostes, sahio El Rei Nosso Senhor, que santa gloria aja, a ouvir missa á Misericordia, quasi indo em pessoa a chamar a Misericordia, que d'ahi a pouco tempo o avia de levar á sepultura, e assim foi esta derradeira sahida só, pera seu costume, e hia ainda muito bem disposto. Ouvida a missa se tornou muito de pressa ao Paço com muita, infinda gente, mal disposto de huma perna, mas pouca cousa, e tudo isto vio hum Padre desta casa. Chegando ao Paço se encerrou em huma camara só sem ninguem, onde esteve muito grande espaço, depois do qual chamou, e pedio agoa rosada, com a qual lavou o rosto, e mãos, e tornou a estar só outro pedaço, donde sahio a jantar muito melenconisado, e jantou mal, e á tarde teve huma febrezinha muito pequena.
«Quinta feira se alevantou, e andou hum pouco achacoso, diziaõ que era de naõ dormir com cuidado do Principe[2] que tivera huma febre, e arrevesava, e naõ dormia. Mas Deos sabe o que era. Com tudo não tinha doença que o fizesse estar em cama.