«Á sexta feira se alevantou tarde, e ouvio missa em casa, e jantou muito bem assombrado, e assim esteve toda a sésta, que ao parecer estava bem, até as quatro horas, as quaes dadas nos chamárão á procissão praecipue pelo Principe, que Deos guarde, a qual sahia da Sé á Misericordia. Sahindo nós da Sé chegou hum recado que fossemos a Jesu de Saõ Domingos com a procissaõ por el Rei, que estava muito mal, e assim se fez, e ouve pregaçaõ. De maneira que perto das cinco horas se começou el Rei de agastar, e chamou Confessor, que estava na Mesa da Consciencia, e confessou-se das cinco até as oito. E logo do Saõ Giaõ lhe leváraõ o Senhor, e chegando nós ao Rossio, nos deraõ novas, que lhe naõ achavaõ pulso. Acabando de comungar começou a concertar seu testamento, o qual naõ acabou de fazer com as mezinhas, e com os agastamentos; mas segundo me dixe o Confessor da Rainha o substancial delle fez, e assinou. Ás dez horas se achou mais leve, e despejou[3] para repousar, e ás onze chamou, e vendo que carregava o accidente pedio a Unçaõ, a qual lhe trouxeraõ logo, e quando já chegou naõ fallava, mas recebeo-a vivo, a qual recebida, sendo já meia noite, em quanto podiaõ dizer huma terça rezada, expiravit levemente, e sem movimentos, nem trabalho mais, que o mortal, que he o mór de todos. De maneira que em sete horas, a saber des das cinco ás doze acabou. A isto naõ estive eu presente, mas soube-o do Confessor da Rainha, e de Luiz Gonçalves, que ahi se achavão presentes, e delles soube que quando el Rei pedio a Unçaõ, que se recolheo o Cardeal, e os outros Senhores, e só a Rainha se foi pera el Rei, e com elle esteve até espirar sem botar lagrima, e acenando a todos que ninguem chorasse alto por não inquietar a el Rei, ella o consolava, e animava a passar alegremente aquelle passo com muitas palavras christãs e devotas: ella lhe teve com grande coraçaõ a candeia em a maõ, e lhe fechou os olhos, e acabando elle de espirar se foi cobrir de dó, e se poz em hum oratorio com quatro vellas no altar, e frontal, e dorsel de veludo carmesi, com o braço de Saõ Sebastiaõ, onde o Padre Montoya a visitou, e consolou, ou para melhor dizer ella consolou ao Padre, que ainda que com muitas lagrimas, com tudo mui inteira na rasaõ, e na modestia exterior, sem nenhum estremo, mostrou estar muito conforme com a vontade do Senhor Deos, e receber tudo de sua maõ, e que rogava muito aos Padres, que a encomendassem a Nosso Senhor.

«Agora o que vi com meus olhos lhes contarei, e o que tratei com minhas mãos: querendo ungir el Rei mandáraõ chamar Padres de todallas Ordens, os quaes todos chegáraõ tendo elle já espirado, e assim o nosso Padre, cujo companheiro fui eu, correndo quanto podiamos fomos quasi todo o caminho, porque não cuidavamos que se fosse taõ asinha. Achámos pelas ruas e Ribeira tudo cheio de pranto, e de gritos, e de muita gente, que com trabalho entrámos. Entrados vidimus coronam capitis cecidisse, et obiisse:[4] ninguem se ouvia com gritos, e soluços, huns em pé, outros de giolhos, outros por esse chaõ: huns chorávaõ, outros gemiaõ, outros amarellos estavaõ pasmados com ver morte taõ supita e com desemparo taõ de repente, e de improviso, estavaõ todos attonitos, e sentidos: ninguem se ouvia, e escassamente podiaõ os Religiosos rezar com lagrimas, até que ás duas, ou tres depois da meia noite entrou o Cardeal ainda de vermelho a despejar a camara, rogando, e chamando a todos senhores, sem lagrima nenhuma, e com el Rei ficáraõ os Religiosos, e alguns Fidalgos, e assim estivemos até as cinco rezando muitos Officios de defunctos, e muitas orações. Ás cinco depois de visto o testamento em conclavi, o Arcebispo despejou a camara sem deixar mais que de cada Ordem hum ou dous Religiosos para o amortalharem, e o Pinheiro com o Confessor del Rei a hum canto rezando: e assim cobertas as cortinas do leito dous Padres de Saõ Francisco, e hum do Carmo, e Frei Jeronimo d'Azambuja de Saõ Domingos, e eu o amortalhámos, ministrando-nos hum Clerigo Fidalgo, de maneira que estas tristes maõs o laváraõ, e alimpárão, e amortalhárão: Bendito seja Deos. Seu corpo ainda que ficou bem assombrado acabando de espirar, com tudo pelo muito que esteve por amortalhar quando o descobrimos estava mais feio, e mais preto do rosto, e mãos, o mais sujo, e o mais nojento, e em fim o mais mortal e terreno, que eu vi outro, e eu tive aquelle pelo mór espectaculo, e pera todo Religioso ver, pera doctrina, e edificaçaõ, que podia ser: Non potuimus continere lachrimas[5] com pranto, e lagrimas rezando o Officio de Defunctos lhe posemos huma toalha na cabeça e rosto mal lavada, e despida huma camiza suja de sangue que botava pela boca, e cousa verde depois de morto, lhe vestimos outra lavada, e lhe posemos o Bentinho de Christo, e o emburilhamos em hum lençol, e cozemos com barbante, sem outra cousa, nem vestido, nem mais habito, e o posemos em hum catele sem alcatifa, nem nada, onde esteve ate trazerem o ataude. Nisto acabou o estado, o fausto, as riquezas, as pompas, as cortezias, os serviços, as adorações reaes, nem em tudo isto se aqueixou dos que isto lhe faziaõ, aquelle que com só a vista fazia tremer o mundo. Dahi a pouco lhe poseraõ hum estrado grande em o meio da camara coberto de veludo preto, rodeado de alcatifas, e sobre elle hum ataude forrado de veludo preto por fóra com huma cruz de damasco branco, e de linho de dentro, aonde o Bispo de Leiria, e o do Funchal, e o Arcebispo, e o Priol de Palmella, e o Bispo D. Pedro e eu com dous Frades o metemos, onde lhe beijáraõ a maõ por sima do lençol estes que ahi estavaõ, lançando-se todos sobre elle com muitas lagrimas, começando novo pranto, e pregado o ataude lhe botáraõ por sima hum panno de veludo preto muito grande com cruz de damasco branco, e aos pés poseraõ huma mesa coberta com hum panno de damasco preto, na qual estava huma cruz da capella, e dous castiçaes com suas vellas, e caldeira de agua benta, e ao rededor quatro tochas em suas tocheiras de prata. E he muito pera notar, que assim como el Rei, que santa gloria aja, foi em vida muito amigo dos Frades, assim des que espirou até o levarem, elles o acompanháraõ, porque até o amortalharem, como já dixe: estiveraõ com elle Frades de todallas Ordens, Frades o amortalháraõ, e meteraõ no ataude, e concertáraõ, e metido cada Ordem vinha sobre si com cruz alevantada, e estava com elle duas horas dizendo hum Officio de Defunctos entoado. Convem a saber os de Saõ Domingos das sete até as nove; os do Carmo das nove até as onze; os de Saõ Francisco das onze ás doze e meia; depois os da Trindade até quasi as duas; depois nós até as tres, e idos todos ficáraõ huns poucos de cada Ordem com a capella até as quatro sempre rezando. Ás quatro entrou o Cardeal, já de roxo, e de giolhos, sem lagrimas, beijou o estrado, e repartio as toalhas do ataude, convem a saber da maõ direita á cabeceira o Senhor Dom Duarte, logo Dom Constantino, logo outro que naõ conheci, logo o Conde da Castanheira: da banda esquerda ad caput o Duque d'Aveiro, logo tres que naõ conheci, os quaes escassamente podiaõ levar o ataude, e aberta a porta da camara por onde o haviaõ de tirar, que estava na varanda, se alevantou hum pranto taõ grande que era cousa de pasmo. Eu nunca vi tanta gente junta, nem tanto grito e choro, nem faces ensanguentadas e arranhadas, nem barbas depennadas, como entaõ vi, tanto que nem havia forças pera andar, nem pera bulir o corpo lugar, até que o Cardeal rogou, que andassem, e recolhendo-se começarão a andar, e passadas duas portas não podéraõ mais, e chamaraõ Religiosos que os ajudassem, dos quaes fui eu hum, de maneira que eu o amortalhei e meti no ataude, e levei até o meterem nas andas; a aquelle que a mim, e a toda a Ordem deo sustentaçaõ, e vida, e com tanto trabalho de meu corpo, que ando agora muito mal tratado por pesar muito, e porque descendo pela escada me ficou sobre mim só todo da banda dos pés, sem me poderem valer com a muita gente, onde cuidei de ficar; mas certo que entaõ naõ senti este trabalho, nem me lembrava repouso, nem sono, nem comer, no que tinha muitos infindos companheiros. Assim nas andas forradas por dentro de veludo preto, com hum panno por sima muito grande do mesmo, com cruz branca, o levou a Misericordia, e a Capella, e o Cabido, sem mais cruz que a da Capella, todos com tochas a cavallo, em duas azemolas, que bem tinhaõ que fazer em o levar, que tanto pezava, e levaraõ-no a Belem, e enterraraõ-no á cabeceira de seu Pai com hum Responso, que pera mais nem lagrimas, nem gritos, nem gente davaõ lugar, que segundo se conjeiturava se ajuntáraõ ao levar, assim na cidade, como fora, até Belem entre homens, mulheres, e meninos por todos bem quarenta, ou cincoenta mil almas, o que crê facilmente quem presente se achou, e o via por seu olho, e naõ foraõ com elle Ordens por rasaõ da Festa da Trindade, nem sabemos ainda quando iraõ, porem todollos Moesteiros se naõ occupaõ agora senaõ em dizer Officios por elle, e em fim os Padres de Saõ Jeronimo o botáraõ á terra, onde jaz descansando, e tornando-se naquillo, que he, aquelle que na vida era Pai, Rei, Senhor, Emparo, e Soccorro, a quem naõ faltava nada pera ser o mais illustre Principe da Christandade: praza a Nosso Senhor que lhe dê na outra vida a gloria, que todos lhe desejamos, e que elle com suas boas obras creio, que merece. Amen.

«Hoje se quebráraõ nesta cidade os Escudos, que he o terceiro dia, e ámanhã terça feira juraraõ o Principe, e cremos que passada a Festa se faraõ os Saimentos Reaes. Do estado do Reino, e quem fica por Governador nulli narranti credatis, porque ainda tudo está secreto, nem se saberá ut creditur taõ cedo. Isto que lhes escrevi he o certo do que passa, tudo o ai tenhaõ por incerto. Resta que o encomendem muito a Nosso Senhor, e a Rainha, e ao Principe, o qual fica bem disposto, e eu o vi sabbado em pé, e bom, e nosso Padre lhe dixe missa depois del Rei amortalhado, e lhe dixe hum Evangelho.

«Esta carta tenhaõ cada hum por sua, e encomendem-me a nosso Senhor todos, porque eu naõ tenho tempo, nem disposição pera escrever particularmente a todos, ainda que sim vontade grande. As ceremonias da cidade já naõ se fazem nos dias ordenados, mas a outro tempo. De Lisboa a 14 de Junho de 1557. Irmaõ de todos, e filho em Christo. Frei Thomé de Jesus.»

Está visto que o principe perfeito, flagello dos israelitas, morreu bastantemente fedorento, revessando postema esverdinhada, e envolto em uma camisa chagada e esqualida, que fez engulhos ao bom do frade. No discurso da vida, D. João II soffreu sempre de uma erysipela nas pernas, que ás vezes lhe não consentia o uso das piugas; por maneira que trazia as botas estremes sobre a pelle esgarçada de sorosidades. Era uma cousa immunda em corpo e alma este scelerado real! Vem de molde o extracto de umas antigas Memorias ineditas de Diogo de Paiva e Andrade:

«D. João III costumava dormir a sesta depois de jantar em uma casa que tinha janellas para o Tejo, assistindo nos Paços da Ribeira, sendo poucas as pessoas a quem permittia licença de entrar n'ella em quanto descançava. Succedeu, uma tarde, abrir a porta uma d'aquellas a quem tinha permittido a dita faculdade, e viu el-rei não deitado, mas em uma cadeira sustentando com ambas as mãos a cabeça e com os braços encostados sobre uma banca; e, não lhe dando palavra, retirou-se para a casa immediata, e com os mais que estavam n'ella se principiou a discorrer sobre qual seria o motivo que obrigava sua alteza a tanta consideração. Achava-se tambem presente o marmanjo-mór, um chocarreiro do paço, castelhano, chamado D. Fernando de Roxas, homem que tinha siso, o qual, depois de observar muito tempo a conversação, disse para os que fallavam:--Senhores, el-rei não quiz dormir, e não considera em cousa de substancia--e, entrando logo na camara em que estava, perguntou-lhe em que cuidava; ao que el-rei respondeu: «Estou considerando como se me farão umas botas menos largas do que uso, sem padecerem as pernas.» Voltou o chocarreiro para fóra, e, contando o que passava, acabaram os discursos, entrando-se em outros, que merecia o assumpto. N'este tempo foi mui frequente o calçado de botas, ainda em dias de grande funcção, por imitação a el-rei, que quasi sempre as trazia, por ser muito soroso das pernas, e tão grossas as tinha que poucas vezes se servia de meias.»

Até aqui o author do Casamento perfeito.

Quando se escrever sincera historia de Portugal, não se repita sómente o que o snr. A. Herculano escreveu da inepcia, do fanatismo, e das ruins entranhas de D. João III. Refira-se que a alma lhe exsudava o pus na epiderme das pernas, e attribua-se ás angustias da sua suja enfermidade o phrenesi que rebentava em raivas contra os judeus, a diabetes que se dessedentava em sanque. Se Byron satyrisou os bons costumes e as virtudes inglezas porque tinha um calcanhar desengonçado, que muito que D. João III queimasse trinta mil innocentes, se as pernas lhe esvurmavam peçonha?

Ao proposito do marmanjo-mór D. Francisco de Roxas, occorre-nos acrescentar que elle teve uma filha chamada D. Maria, que casou com André de Sousa Chichorro, descendente de Affonso III e de uma formosa moura. D'este neto do rei e da filha do chocarreiro ha descendentes, a quem não é hoje permittido saudar como netos do marmanjo-mór do paço d'el-rei D. João, o principe perfeito.

[2] Este principe era seu neto D. Sebastião.