D. Caetano respondeu ao confessor e ao ministro do regente, que garganteava canto-chão em Mafra devotamente. As cartas são longas e a vida é breve. Da resposta enviada ao padre Mathias, trasladamos um periodo energico:
«... Espero que v. s.a se capacite de que não é o espirito de teima o que me anima ao presente lance; mas o desejo sincero que tenho de dar boa conta da minha administração ao supremo juiz dos vivos e mortos. Respeito com profunda submissão as ordens dos meus soberanos, e d'esta disposição creio tenho dado as provas menos equivocas em doze annos que vou contando de bispo, como podem attestar assim na America como no reino todos os que tem ouvido ou lido as minhas instrucções pastoraes. Mas esta obediencia ás reaes ordens sabe v. s.a perfeitamente que nunca deve extinguir no coração de um bispo o zelo que d'elle reclamam os legitimos direitos da igreja, sobre tudo quando se enlaçam tão apertadamente com a salvação das almas. O contrario seria transtornar a ordem que Deus tem estabelecido entre o sacerdocio e o imperio; é querer fazer a igreja captiva dos reis da terra convertendo-a em corpo politico, o que sem difficuldade, diz Bossuet, arguiria a mais inaudita lisonja que póde entrar no espirito humano... Uma cousa quero pedir mui confiadamente a v. s.a, e é que no caso que as razões expendidas lhe não pareçam sufficientes para sustentar o meu designio relativamente aos mosteiros d'esta diocese, como para mim tem força, e tal que liga invencivelmente a minha consciencia, haja de expor a sua alteza a impossibilidade em que me acho de condescender com a vontade d'aquellas religiosas, em quanto se me não fornecerem novas luzes por onde venha no conhecimento do meu erro... Braga 13 de março de 1794.»
Na resposta ao ministro é humildissimamente um apostolo da primitiva christandade. Alludindo ao vigario geral que o detrahe e impugna na carta, escreve mansamente:
«... Só um pequeno numero de espiritos, de que não era difficil conhecer as intenções, pelo interesse que tinham de vêr deprimida e mesmo extincta a authoridade de quem os dessocega na falsa paz da sua relaxação e desordem (entre os quaes sobresahe com grande vantagem um clerigo que se acha n'essa côrte com ar de requerente, homem que sempre representou no theatro das intrigas que são manejadas com arte), só este pequeno numero que a abbadessa se tinha associado para as suas frequentes conferencias, é quem podia lisonjeal-a em tão estranho projecto.»
E, a final, quem venceu?
Venceu o vigario geral, e a abbadessa, e a rodeira, e a organista, e a escrivã, e a boticaria. Houve luminarias no adro do mosteiro. Versejou o poeta da organista, que era padre, e se chamava o Mormo, alcunha de molestia que lhe pegára o pegazo das cavallariças monasticas. Recitou o poeta da boticaria, que se chamava o padre Mesquita, que lidava em torneio de murros com o Mormo em todos os outeiros. O vigario geral fez córar a abbadessa com uma ode em que ella era comparada á Venus callipygia; em fim, até os tachos, que assim lá chamavam ás criadas, deram motes e pasteis--os celebrados pasteis de Santa Clara--a muita somma de sapateiro que n'aquella noite converteu a tripeça em lyra e a sovella em plectro.
D. frei Caetano Brandão áquella hora pedia, talvez, a Deus que lhes perdoasse a ellas e aos poetas porque não sabiam ellas o que faziam, nem elles o que diziam. Era santo, em fim!
Quem poder imital-o, faça a mesma oração a favor de alguns poetas de hoje em dia, e não se esqueça de mim, que sou dos mais necessitados.