«Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1591, aos 28 dias do mez de maio do dito anno, na Villa de Chaves, nas pousadas do licenciado Gaspar da Rocha Paes, vigario geral no temporal e espiritual n'esta vigararia comarca da dita villa, pelo ill.mo snr. D. fr. Agostinho de Jesus, pela mercê de Deus e da santa sé apostolica, arcebispo, senhor de Braga, primaz, etc. Presente elle appareceu o padre João de Mattos, morador em a dita villa, o qual trouxe a mostrar a elle vigario uma peça de marfil (marfim), que mostrava ser de feição de uma bezerrinha, e sómente lhe faltava as pernas, e braços que estavam quebrados, e assim os corninhos espontados, o qual disse que a achára na mão de André, moço de 16 annos, filho de João Rodrigues do Campo, arrabalde d'esta villa; que por lh'a vêr na mão lh'a pediu que lh'a mostrasse, o qual lh'a mostrou; e por a dita bezerrinha ser tal como dito é, e além d'isso cheirar muito a almiscar, e parecer estar em parte...[11], e lhe não parecer bem, lh'a trazia a mostrar por a pedir ao dito moço André. O qual André presente disse que era verdade que aquella peça, indo elle André hoje n'este dia a casa de Pero Fernandes, escrevente d'esta villa, á escóla, para o ensinar a lêr, a achou debaixo de uma arca, e ao tempo que a achou sem ninguem o vêr a guardou, e levou, e andou mostrando a algumas pessoas entre as quaes foi ao dito padre João de Mattos, e a Mathias de Barros cavalleiro d'esta dita villa; e lh'a tomaram. E logo outro sim appareceu Pedro moço de 16 annos, filho do dito Pero Fernandes escrevente acima dito, e por elle foi dito que era verdade que aquella bezerrinha elle dito Pedro a achára na rua do Sol, d'esta villa, no meio da rua defronte da casa de Francisco Borges, em que hora (agora) elle vive, que é de Diogo Ferreira d'esta mesma villa, o que poderia haver um mez pouco mais ou menos, e lh'a viu achar Lazaro, filho que ficou de Gaspar de Magalhães. E depois de assim a achar a levára para casa como dito tem sem outra cousa alguma, e a trazia em casa sem entender o que era; e andava ahi em casa por detraz das arcas. E estando assim para se fazer este auto chegou o padre Gaspar Dias, e o padre Antonio de Magalhães, ambos d'esta dita villa, e disseram, que estando ambos juntos, e vindo pela porta do dito Francisco Borges acima dito, estando Gaspar Teixeira Chaves á sua janella, lhes disseram elles que se achára uma bezerra, não sabendo onde, como na verdade não sabiam; e, estando n'esta pratica da dita bezerra, disse uma moça que se chama Maria de Villar de Nantes, e criada do sobredito Francisco Borges, e outra moça pequena, outro sim criada de casa por nome Madanella, disse a grande rindo-se: Senhores, isso é de cá. E elles ambos passaram seu caminho sem responder nada. E logo veio atraz d'elles a dita moça Madanella, e elles a chamaram, e não quiz vir, e foi a casa do dito Francisco Borges, e tornou logo a sahir, e veio ter com elles ditos padres, e pediu a elle dito padre Antonio de Magalhães que lhe desse a vaquinha, e elle lhe perguntou se era sua, e a dita moça que sim era sua, que viera de Lisboa e que a trazia o menino na mão, e que em algum tempo elle dito padre Gaspar Dias ouviu dizer aos antepassados que uma Branca Manoel em Lisboa fôra queimada, a qual fôra bredona (?) de Violante Mendes mulher do dito Francisco Borges, e o vinha denunciar e dizer. Estando assim elles ditos padres, presente elle vigario, chegou a dita moça Madanella duas vezes, e na primeira disse a elle vigario que a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava pedir a vaquinha que era do seu menino; e da segunda que tornou disse, que a sobredita sua senhora a tornava a mandar que por amor de Deus lhe désse a vaquinha que era do seu menino que a perdera havia quatro dias. E de tudo mandou elle vigario fazer este auto, e assignou com os ditos padres aos quaes todos tres deu juramento dos Santos Evangelhos que n'esta parte tivessem todo o segredo como cousa do santo officio, e elles assim o prometteram e juraram e assignaram que a tudo se achavam presentes ás perguntas que se fizeram aos sobreditos moços, que elle vigario não quiz estivessem presentes ao fazer do auto, nem que assignassem por não serem capazes de segredo. E eu James de Moraes o escrevi, e a sobredita vaquinha ficou em poder d'elle vigario. E eu sobredito escrevi.==Rocha, Gaspar Dias, Antonio de Magalhães, João de Mattos.»
Ahi está o corpo de delicto que levou á morte um homem e uma senhora que tinham um filhinho, o qual brincava com uma bezerra de marfim sem pontas nem pernas. Tres ungidos do Senhor, tres padres denunciantes lá estão na gloria eterna revendo-se na bemaventarança das duas almas que elles purificaram no fogo.
[11] Palavra inintelligivel: parece dizer degolada.
RANCHO DO CARQUEJA
Ha 153 annos que um bando de estudantes, em Coimbra, acaudilhado pelo mais intrepido e de peores entranhas, começando por espancar os archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar quem lhe offerecesse reacção. Chamavam-se do e não da Carqueja, como escrevem todos os que relembram a funesta existencia d'aquelles rapazes perdidos. Carqueja e Estopa haviam sido, por aquelle tempo, dous facinorosos de Vizeu, chefes dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram os estudantes o sinistro baptismo do seu bando. E é de notar e deplorar que alguns da quadrilha eram padres que cursavam theologia. Depois de repetidas atrocidades, o governo, a rogos dos habitantes de Coimbra e lentes da universidade, enviou a marchas forçadas tropa de infanteria com alguns esquadrões que chegaram de madrugada e colheram de sobresalto os criminosos.
Alguns, bem que não reagissem, entraram acutilados no carcere, e foram depois morrer no Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos seus nomes:
O capitão do bando era da Terra da Feira; chamava-se Francisco Jorge Ayres. João Pedro Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio Ramos, José Rodrigues Esteves, José Antonio de Azevedo, Antonio da Costa e Silva, o Pescada; o padre José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho, Roque Monteiro Paim, José de Horta, D. Manoel Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo, brazileiro; o padre Francisco Pereira Goes, natural de Pereira; José da Cunha Borges, do Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra; Lourenço Pimenta, Antonio Maceiro, Thomaz da Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes foram os presos conduzidos a Lisboa, afóra um estudante de Aveiro, cujo nome não sabemos, e um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos, Francisco de Sá, natural de Evora, pôde evadir-se de Coimbra para aquella cidade, e d'alli para Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a quem fôra recommendada a captura de Francisco de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe resultou ir por ordem de el-rei carregado de ferros para o Limoeiro.
O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da malta, foi degolado no Pelourinho de Lisboa em junho de 1722.