Antonio da Costa e Silva, de alcunha o Pescada, e José de Horta morreram na cadêa.

A maior parte dos outros cumpriu sentença de degredo.

Entre os presos havia um poeta, D. Manoel Alexandre da Costa, neto do primeiro conde de Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra preso na cáfila dos scelerados, adoeceu de vergonha, e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos 16 de novembro, quando o filho ainda estava no Limoeiro, esperando a sentença.

O protector deste moço era o marquez de Marialva, a quem o estudante, desde que o prenderam relatou em toantes, á moda do tempo, as suas desventuras. É longo o poema, e fastidioso, sem impedimento do interesse inspirado pela tragedia do assumpto. Não me dispenso, porém, de trasladar as quadras que dizem mais ao intento. Refere o incidente imprevisto da prisão:

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Era, em fim, de madrugada,
a hora menos escura
em que o dia irresoluto
nem se esconde, nem se occulta,

Quando com bellicas vozes
pela destra mão avulsas,
pois a eloquencia de Marte
não tem lingua, e não é muda,

Se ouvem de uma, e outra parte
gemer as portas, e ruas,
em o concavo dos montes
o ar ferido retumba.

Todos ás janellas chegam
com desordenada chusma,
quem nas janellas não cabe
talvez aos telhados suba.

Quando vem de infanteria
uma bem formada turba
forte como portugueza;
mas tyranna como turca.

Vem tambem destros ginetes
cujos pennachos, e trunfas
se tocavam das janellas
ao movimento das upas.

Por outra parte a justiça
entre os soldados vem junta,
que o ser a justiça armada
não é só para a pintura.

Das casas as portas tomam,
não de todas; mas de algumas,
pois só se emprega a vingança
onde se suspeita a culpa.

Logo de vista tam nova
com diversas conjecturas
todo o prudente se admira,
todo o culpado se assusta.

Que será, que não será,
todo o innocente pergunta;
não o pergunta o culpado
que a mesma consciencia accusa,

Quando para o desengano
de tudo o que se murmura,
a esquadra passa da porta
a guarnição que as occupa

Levando a baioneta
mettida, calçada a buxa,
muito valor, pouco termo,
pouca attenção, muita furia.

Assim entram os soldados
pelas casas mais occultas,
dem-se á prisão repetindo
ainda quando nada escuta.

Pois como vinham temendo
os do rancho, cada um cuida,
que cada taboa pregada
mil criminosos occupa.

Não ha cozinha, ou armario,
nem ha chaminé, nem tulha
que logo se não despegue,
logo não se desentupa.

Porém era muito cedo
sem que nenhum tal presuma,
pois a culpa obra-se sempre,
Que a pena espera-se nunca.

Nas camas os acham todos:
mau é que o culpado durma,
porém quem se deita tarde,
claro está que não madruga.

Alli sem trabalho os prendem;
porque alli ninguem repugna,
pois não tinham como os corpos
alli as espadas nuas.

Querem fugir; mas não podem,
pois por militar industria,
como estão guardas ás portas
não ha por onde se fuja.

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Até aqui, não ha razão para grandes piedades; mas, ao diante, as trovas exhoram a compaixão; e o caso foi que o marquez de Marialva salvou do degredo o supplicante poeta; mas não pôde arrancar o viso-rei das presas do opprobrio que o mataram.

Quem visse dezesete annos depois D. Manoel Alexandre da Costa, obeso doutor em canones, prior da igreja de Santa Cruz no Minho, e principal da santa igreja de Lisboa, devia lembrar-se do socio bastantemente prendado do rancho do Carqueja, e recommendar á justiça de Deus os juizes que degolaram Francisco Jorge Ayres, e absolveram o afilhado do marquez, e sobrinho do segundo conde de Soure!...

FIM DO 1.o NUMERO