Um dos que alli morreram foi aquelle que, dando a mão a Deolinda, lhe dissera: «Adeus!»

Era um homem de trinta annos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de cortezão, com palavras polidas e muito alheias das usuaes nos homens que viandam por aquellas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o diria. Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse que o seu nome se não lesse em epitaphio. Sei que elle cumprira sentença de tres annos em Angola, porque aspirára ás honras de ser rico, sem escrupulisar nos meios. Tinham-lhe dito que os seus conterraneos mais nobilitados se haviam enriquecido, trocando as riquezas da sã consciencia por outras que levam ao inferno, é verdade, mas pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo. Via-os saborearem-se em socego dos bens mal adquiridos, sem remorso que lhes desvelasse as noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe mais ao de cima, a gente chamada ás honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação, quanto á procedencia de seus bens de fortuna.

Nascimento illustre, educação primorosa em letras, e bastante descuidada em moral, pobreza repentina por effeito de demandas que o esbulharam do patrimonio, impaciencia, ruins exemplos de infames prosperados--todas estas cousas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador de notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á vela para lá, de um porto do archipelago açoriano, foi denunciado, preso, e condemnado.

De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu pai, que o tratava com desdem, senão desprezo. A filha do negreiro--negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bemdita seja a civilisação!) philanthropo seguidor das leis humanitarias impostas pelo cruzeiro--soube de seu pai o crime do passageiro, e não se compenetrou do racional horror de tamanho delicto. Bem que o condemnado não ousasse abeirar-se dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou traças de conversar com elle uma fugitiva hora de noite serena, em quanto o pai, no seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou a prova real de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe attribuiam.

Desde essa hora da noite estrellada em que ella ouvira palavras nunca ouvidas, accendeu-se no coração combustivel da mulata o fogo que costuma purificar as culpas do homem amado, tanto monta que elle seja moedeiro falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.

E elle soube que era amado d'aquella mulher que havia de herdar muito ouro, e nem por isso lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre estigmatisado para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem de animo alvoroçado por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou arguil-o de frio e desdenhoso. Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só havia no mundo uma mulher que não devia desprezal-o, e uma só a quem elle devesse amar sem pejo nem temor de ser repellido.

--Quem é?--perguntou ella em sobresalto.

--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe perdão, porque puz a minha ignominia á cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas e saudades, é porque Deus quer que eu a veja.

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Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de nós?