O Africano havia escripto de Lisboa ao seu feitor, annunciando-lhe o dia em que tencionava chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação de lhe ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua filha.
Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufragio, porque a não sabia. Se o homem lesse gazetas, informaria os seus visinhos do desastre de seu amo, da riqueza engolida pelas guelas da tormenta, da quasi pobreza em que ficára o naufrago, e, em fim, das piedosas lastimas com que os periodicos deploravam a catastrophe de duzentos contos grangeados honestamente. Se isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de musicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos da requinta. Quanto ás vinte e quatro duzias de foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, é bem de vêr que ninguem se abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se se soubesse que o Duque não vinha em circumstancias de chorar de ternura abraçado ao peito magnanimo d'onde rabiavam tantos foguetes.
No dia marcado ao feitor, devia o Africano chegar á Ponte, onde era esperado; porém, apeando na estalagem da Carriça, legua e meia distante, ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro musicas, e muito fogo do ar, á espera de um brazileiro que vinha da Africa.
Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege, porque resolvera sahir de madrugada.
Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto que queria evitar no encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos.
Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução do pai, queixando-se de agonias, suffocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a jornada.
Passou o pai o restante do dia e parte da noite á beira da cama, inventando com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma ou outra lagrima desafogava por momentos. Alegrias!...
Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos ha que são suppliciados por esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias tem esta vida, se comparamos todas á d'aquelle pai que alli estava ao pé da filha que os medicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!
Mas elle, acreditando na sciencia que tem a certeza de ser lesão mortal a hypertrophia do coração, afigurava-se-lhe que a Providencia o não castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens, para depois amparar em seus braços a filha agonisante. Nunca discutira entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento d'este mundo. São meditações estas que, em Africa, passam rapidas como o sirôco, mas não abrazam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as faces nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação do pai de Deolinda, pensam, se acaso pensam, que a justiça do céo tem alçada em mais amenos climas, e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o tigre. Porém, depois que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e a briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam crêr que ha Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de o conjecturar sentado á mão direita do Padre Eterno, e absorvido na perennal gloria de sua divindade, sem entender nas trivialidades d'este globo, mais pequeno que os milhares de mundos que lhe circumvalam á ourela do throno. Esta philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os mestres em a propagar, e todavia qualquer sandeu bem engraxado a tem espontanea na alma, como tortulho em lodaçal, sem que os philosophos lh'a inculquem. Estudem Ario, Spinosa, Renan, e outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro de si, repito, porque o si, o elle, são as cedulas bancarias, a burra, que tem um nome de predestinação para aviso e escarmento de sabios que se burrificam, não querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos, inviolabilidades, vem tudo da burra.
Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se arqueia em vagalhão, e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza do homem, que se arrodelára com ella das farpas do mundo. Os brilhantes impenetraveis do arnez cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui está o homem a pensar em Deus, porque está pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos outros e divindade de si proprio. A desgraça, que traz sempre comsigo um anjo vestido no céo com uma luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa por lhe dizer: