«Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza? Olha tu para as estrellas que scintillam serenamente sobre a voragem que t'os devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que ha d'estes milhões de mundos para além!»
Ah! quando esta voz repercute na consciencia de um pai, e ao mesmo tempo a aza da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim, Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas. Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos grandes desgraçados foi alumiada por esse relampago.
Pelo que, assim orava o Africano, ás quatro horas da manhã, em pé, defronte do leito da filha adormecida.
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Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.
Quando o souberam os visinhos, um correu á igreja a repicar o sino e a sineta, outro rompeu as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, que andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu de galope a casa do mestre, escodeou as mãos do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente á porta do Africano, tocando o hymno de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o hymno da snr.a Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de Saldanha, e o do Santo Padre Pio IX.
O Africano sahiu á janella com sua filha, cortejou o publico, assistiu a duas mazurkas tocadas com variações de requinta, e pediu venia para recolher-se em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no rosto.
O publico murmurou, tregeitando uns momos significativos de menos respeito.
O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos musicos, e receber a visita dos parentes e mais lavradores.
O Duque respondeu: