--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que eu estou pobre.
--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz--Bem me fio eu n'isso! V. s.a está a mangar!...
--Faça o que lhe digo--volveu severamente o amo.
E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si os lavradores mais grados, o mestre da musica, o boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o regedor de Vermoim, e disse-lhes:
--O ill.mo snr. Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre.
Os circumstautes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo choque. Um d'elles, porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, deu aos beiços um geito de quem vai orar. Encararam-o todos, e o boticario tirou do peito estas duas palavras:
--Ora bolas!
E sahiu do pateo.
Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas palavras do attico pharmaceutico. Consultei philologos, que mais convisinham d'este sujeito, e apenas colhi que as expressões «ora bolas» montavam tanto como dizer: ora bolas.
Eu, porém, dou mais lata interpretação ao epiphonema, sabendo que todo aquelle gentio boloirou para casa[1].