O Africano, passados seis mezes, procurou um brazileiro rico de Ninães, recentemente chegado, e disse-lhe:

--Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a grandes despezas, incommodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lh'a por metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim d'este prazo; mas, n'estes primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.

Pediu o brazileiro explicações de tão estranha clausula.

O Duque respondeu:

--Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu tambem me sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa vêr a morte na face de minha filha. Não hei de sobreviver-lhe, se Deus me não fizer o beneficio de me levar adiante.

Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou a proposta, e assignou as escripturas no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de reis.

Pagou o Africano as dividas contrahidas em Cabo-Verde, encerrou-se na ante-camara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os seus padecimentos á custa de se remirar no seu infortunio, de cortar bem dentro as fibras ainda rijas do coração, antecipando a imagem da filha morta, repulsando todo o allivio da esperança, furtando-se a todo o desafogo, matando-se com a lentidão de um desvairado que se encavernasse n'um antro, esperando sem terror a entrada da fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas presas.

Ao quinto mez do contracto, os padecimentos de Deolinda tocaram nos extremos symptomas da morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração.

N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era já delirio precursor da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, ou Deus me mata ámanhã, ou, quando ella estiver sepultada, eu me matarei.»

O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu estas vozes, e disse aos botões da sua batina: «Este homem está no inferno.»