Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:
--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um segredo com que não devo morrer. No meu bahú está uma caixinha de folha, que o mar lançou á praia, depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde esta caixinha, cuidando um marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãi muito extremosa para seu filho. O filho era aquelle rapaz que vinha do degredo, e salvou os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, que lhe escrevia, diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angustias da fome. Chama-se ella... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido, feliz d'ella. Se ainda viver, meu pai, mande-lhe como esmola o que ficar do meu espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até morrer... por elle!...
--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.
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Ditas aquellas palavras, o Africano encarou na filha com a fixidez torva de um amaurotico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, sabiu da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, e murmurou estas vozes:
--Meu Deus! morro por amor de minha filha, e ella... morre por outro... Bem podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte annos a adorar esta filha, um anno a agonisar ao pé da sua agonia... e a final ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai...
Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo a Deus com dilacerante esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida n'um estremecimento instantaneo.
Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão da morte, e voltou a face para onde suppunha que estava o pai.
Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha. Acudiu a criada, a quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi nos braços da criada á sala contigua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se sobre o peito d'elle, colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, como vestigio da alma que passára queimando as fibras por onde abrira a fuga do seu inferno.
--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.