Eu sei que os fidalgos do acaso, como acima lhes chama o conde de S. Lourenço, se rejubilam de ter estirado as camadas do seu lodo por cima dos honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, a liberdade de lembrar a suas excellencias que a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram através dos seculos os nomes historicos; ao passo que estes adventicios afidalgados, á falta do vinculo que os tenha alguns seculos pendurados no esgalho do tronco velho, bem póde ser que se estejam desentranhando em filhos para futuras tripeças.

Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, para que a comedia humana não seja de todo em todo ridicula e inutil ás artes.

[2] O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, e dado a uma senhora d'esta casa aia do principe.

[3] O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas riquissimas casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, vastissima propriedade vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, havia sido dado por D. João I a João das Regras, ascendente dos senhores de Cascaes. O marques morreu pobre. Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de negociante no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro um filho de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes lusitano!

[4] Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista como extinctas.


LISBOA

Ha mais de dous seculos que um viajante francez de grande qualidade esteve em Lisboa. Volvidos trinta annos, o filho do companheiro de viagem d'esse incognito senhor mandou imprimir em Hollanda as viagens que seu pai escrevera, e deu este titulo ao livro: Voyages faits en divers temps en Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France et ailleurs. Par Monsieur M. **** A Amsterdam, MDCC.

Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 de maio de 1669. Em sete paginas de oitavo pequeno esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; mas não nos detrahiram nem calumniaram. D'essas sete paginas, provavelmente desconhecidas ao commum dos leitores, a substancia é esta:

«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas as nações alli trazem gente, sendo muita a mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. As liteiras são mais que as carroças; mas são magnificas. E, porque a cidade se fórma de outeiros, o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas são aceadissimas e formosas. Os portuguezes andam armados de espada e punhal.