«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de 1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.
«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do mundo, ou a mais paralytica, e em todo o caso a que mais velozmente corre para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da monarchia.»
Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando no que respeita á prodigalidade das mercês. Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre saber que a maioria das casas titulares de primeira plana já principiava a esboroar-se no principio d'este seculo. O golpe da extincção das commendas pouco sangue já encontrou nos corpos dos commendadores. Se ainda no Torneio real de 1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos trinta e dous fidalgos pompeando as galanices da Asia, indaguemos hoje a paragem dos netos d'esses homens, que eram os primeiros nomes de Portugal. Onde estão os haveres do conde de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? do marquez de Angeja? do de Ponte de Lima? do conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? do de Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde de Barbacena? do marquez de Tancos? do conde de Sabugal? Estes eram do numero dos trinta e dous fidalgos que resplandeceram nas cavalhadas no anno de 1795 para festejar o nascimento do principe D. Antonio. E dos restantes, exceptuada a casa de Cadaval, com pesar de ss. exc.as, força é declarar que não ha ahi barão moderno que lhes inveje a riqueza.
A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos o seu livro de creditos, no anno de 1813, e mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel dos bens d'esses fidalgos que, em nossos dias, vimos inteiramente desbaratados. Entre 1813 e 1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava os dissipadores á voragem era cada vez mais escorregadia. O proprio conde de S. Lourenço, que presentira o naufragio da nobreza, levada a pique pela rajada da liberdade, não educou seus filhos melhormente que os seus iguaes em fidalguia, e desigualissimos em intelligencia. Se elle anteviu a borrasca, devera colher as velas á nau, que se desmantelou, como as outras norteadas por palinuros, ignorantes e cegos.
Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos algum raro fidalgo, cuja casa se teve no balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse tal achal-o-hemos acostado á restauração liberal de 1833, e quinhoeiro, por tanto, das regalias que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, dos que serviram a liberdade, houve d'elles que nem assim lograram reparar as ruinas.
O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte lista:
| A casa de Rezende devia á Misericordia de Lisboa com vencimento de juros, no dia 8 de março de 1813 | 9:991$509 |
| A de Ponte de Lima | 1:270$442 |
| A de Abrantes | 8:978$105 |
| A de Tancos | 11:750$000 |
| A de Louriçal | 9:600$000 |
| A de Obidos | 101:490$899[2] |
| A de S. Vicente | 4:000$00 |
| A de Soure | 21:080$698 |
| A de Borba | 1:278$154 |
| A de Pombeiro | 18:508$500 |
| A de Coculim | 9:400$000 |
| A de Loulé | 5:715$494 |
| A de Lavradio | 11:700$000 |
| A de Unhão | 4:655$011 |
| A de Vidigueira | 353$128[3] |
| A de Alorna | 40:665$011 |
| A de Atouguia | 3:989$115 |
| A de S. Miguel | 10:295$565 |
| A de Tavora | 7:289$433[4] |
Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio Soares de Noronha, o conde de Alvor, dos Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, de D. Luiz de Portugal da Gama, de D. Rodrigo Xavier Pedro de Sousa, e outros, perfazendo 340:359$700.
O empregado da secretaria da Misericordia, que passou a certidão n'aquelle mesmo anno de 1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes capitaes se consideram perdidos, porque os devedores tem provisões com tempo illimilado, e não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e duvidados pelos devedores; de sorte que são muito poucos os que se podem manifestar como liquidos.»
Por onde se conclue que a minguada fortuna dos pobresinhos cahira em honradas mãos! Eu, contra o parecer do escripturario, creio que os fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos com mais ou menos pontualidade; e, se não pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a misericordia por si.