Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar de uma noite orvalhada de dezembro. O coveiro estava prevenido e a postos. Não havia que esperar garganteações de psalmos. A fossa da valla dos pobres estava aberta. Na gleba desaterrada alvejava ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. Aquillo fez-se depressa. O caixão baqueou, desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra fôfa. Os portadores d'aquelle pobre aconchegaram os capuzes das orelhas cortadas do suão, e sahiram de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, e foi no dia seguinte, aquecido com aguardente, volver sobre as taboas chuviscadas o comoro de terra, que alisou com a pata da enxada.
Depois, o eterno silencio.
Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos d'este homem, e dispenso-os do bilhete de visita.
AS JOIAS D'UM MINISTRO DE D. JOÃO V NO PREGO
Este ministro era Alexandre de Gusmão.
Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S. Paulo, por 1695, e falleceu em Lisboa, em 1753.
Foi cavalleiro professo na ordem de Christo;