«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar: ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes, supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos: e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade pueril.

«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia, á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis.

«Não me accuse v. ill.ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus filhos, irmãos, e maridos. V. ill.ma sabe muito melhor do que eu aquelles monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a v. ill.ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou Filles de St.-Cyr, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza, e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que satisfaçam todo o meu desejo.»

Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade, n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme... patriarchalmente.

Boa noite.

[7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas Memorias ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que lhe confiaram.

«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.»


O PRINCIPE PERFEITO

O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima Historia de Portugal, tomo III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve: