«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas ferocissimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o snr. Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João II:
«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores da corôa chamaram principe perfeito, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios abjectos cuidavam escondel-o á execração dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar razões d'estado, que contrapesem a ferocidade do filho d'Affonso V. A historia, á volta d'elle, o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres de homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a punhal, aquelles a peçonha. Oitenta, confessou elle o numero, quando a morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciencia, supplicando ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
«Os lances capitaes de tão má alma contou-os a historia á tragedia. O theatro portuguez já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos á rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a razão que teve a villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino do duque de Vizeu o antonomastico epitheto de principe perfeito.»
«O illustre escriptor é demasiadamente severo com o grande rei a quem Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o dos crimes que pesam sobre a sua memoria. Mas qual dos grandes homens, que figuram na historia, se apresenta immaculado no tribunal da posteridade? No assassinio do duque de Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção aos costumes da época, D. João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas vezes a morte diante dos olhos e que sempre a affrontou sem empallidecer, pôde, quando se lhe offereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversarios, e voltar contra elles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Vizeu foi ferido pela catastrophe que trazia pendente sobre a cabeça do seu adversario; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da victoria, e não soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana. Perdoar! Parece que no mundo só Christo soube cumprir essa maxima sublime, que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilisação, abrandando os costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do seculo XV, ainda a vida das creaturas da nossa especie estava longe de ter o caracter inviolavel que hoje possue. Por tanto D. João II, aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma certa grandeza selvagem, que não desculpa mas attenua o crime.»
Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.
O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde que não póde ser attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o adversario em quanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam pelas costas a victima desarmada.
Nas Memorias ineditas de Diogo de Paiva e Andrade, author do Casamento perfeito, faz-se menção do conflicto, e encarece-se a bravura do coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante significativa da coragem do fidalgo e da cobardia do rei.
Diz assim:
«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque de Vizeu, a quem abraçou por detraz. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se dous irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dous annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dous, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que, agastando-se el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com elles o terceiro.»
Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o animo do nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem não era capaz de matar outro sem lh'o agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela mais dous bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo Mendes do Rio.