«Recomendo a vm.ce a prudencia, procurando não comprometter a authoridade, e respeito da justiça, e só, no caso indispensavel que ameace consequencias é que deve vm.ce ter o procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater qualquer insulto que se queira praticar: o modo nestas occasiões, e a polidez conduzem muito para se concluir o dia sem que seja preciso praticar procedimento algum, e sem que tambem se suscitem conflictos de jurisdicção. Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a vm.ce se pratique como sem hesitação espero; e outro sim que não separe de si os seus officiaes para que não vão fazer acção alguma que não seja por vm.ce regulada. Deus guarde a vm.ce Lisboa 23 de agosto de 1794.==Diogo Ign.eo de Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira.»
Na pagina em branco d'este officio, escreveu o corregedor: Subiu no dia 24 d'agosto na real praça do Commercio depois das quatro horas e meia da tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia da noite cahir ás Vendas Novas, voando depois a Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual foi depois cahir a Veiros.
Vicente Lunardi escreveu depois a sua Viagem aerea, impressa no mesmo mez e anno em Lisboa. Da sua escripta não transpira queixume dos portuguezes. Apenas estas expressões denotam uma alma nobremente magoada: Os applausos, com que me tem honrado a nação portugueza, me fazem esquecer «as minhas passadas desgraças» e me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento, uma exacta narração de toda a minha viagem aerea, etc. (Veja o Panorama, tom. VIII, pag. 21 e seg.)
Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos anonymos, publicados n'essa occasião. Quem quer que fosse, o author não teve a coragem de assignar os seus aleijados versos. Além d'isto, uma epistola do padre José Agostinho de Macedo a Stochler; e, sobre tudo o elogio que lhe consagrou Bocage, em versos esplendidos, que podem aferir-se por esta estancia:
Portentoso mortal, que á summa altura
Vaes no ethereo baixel subindo ousado;
Que illusão, que prestigio, que loucura
Te arrisca a fim tremendo e desastrado?
Teu espirito insano, ah! que procura
Pela estrada do Olympo alcantilado?
Não temes, despenhando-te dos ares,
Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?
Lunardi descrevendo os trabalhos que passou até embarcar em Aldeia Gallega, conclue assim a narrativa da sua viagem:
«Embarquei finalmente ás quatro horas da manhã, e com uma feliz viagem; cheguei ás 7 horas da mesma manhã ao caes do Terreiro do Paço, onde achei um grande numero de pessoas que me esperavam, e no meio de vivas de alegria me conduziram á minha habitação.
«Estes signaes de verdadeiro contentamento, e o concurso continuo de pessoas ainda das ordens mais respeitaveis, provam assás os sentimentos, que produziu a minha viagem aerea, que tanto é mais famosa, quanto mereceu os applausos de uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha agora em honrar-me, tem adquirido incontrastaveis direitos ao meu reconhecimento, e eterna gratidão.
«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos seus successos: e posto que ella não contenha em si nada de extraordinario para os corações indifferentes, deve com tudo interessar as almas sensiveis, e compadecidas, que saberão estimar em seu justo valor as minhas fadigas, e os meus soffrimentos. Para estas pois é que eu escrevo, na certeza de que, se não lhes merecer os seus louvores, conseguirei ao menos a sua compaixão, e o seu affecto, que é toda a minha ambição e o unico objecto d'esta pequena descripção.--Vicente Lunardi.»
Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e rapazes lhe fizeram no Terreiro do Paço, cuidou o aeronauta que lhe seria permittido renovar a ascensão, e auferir d'ahi recursos com que voltar a Inglaterra onde tinha o seu emprego na embaixada napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage e Macedo, lhe sorria a esperança, quando na madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias depois da primeira subida, o acordaram para lhe noticiarem que o seu barracão na praça do Commercio se derruia esphacelado pelos machados de quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.