Agora direi os argumentos, bem que menos valiosos, em que eu assentava o meu erro.

Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou pasquim, injuriando os magistrados. Houve devassa e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, que viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, deixando, como prova do seu mal empregado engenho, um notavel poema que diz respeito á invasão franceza.

Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada satyra do Ferro, precedida da seguinte nota: Este libello é dedicado á memoria do Estopa e Carqueja, dous heroes que tudo levavam a pau e espada em Vizeu, ahi pelos annos de mil setecentos e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome os estudantes de Coimbra chamados o Rancho do Carqueja.

Isto não obstante, a correcção do snr. Martins de Carvalho deve antepor-se, visto que a sentença condemnatoria diz: «Rancho que denominaram DA Carqueja, originando este nome de haverem queimado com ella uma porta, etc.»


BOM HUMOR

(AO NOTICIARISTA DA ACTUALIDADE)

Chamar a D. João III principe perfeito podia ser lapso, sem ser ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito.

Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as Noites de insomnia são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará piedoso, como estava no original, emendado para principe perfeito, como está no livro. Se quer saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto monta para mim a perfeição de D. João II, o algoz, como a piedade de D. João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o Pai da patria; outros o Filho da igreja; outros, authorisados por Paulo III, o Zelador da fé. Eu chamei-lhe o principe perfeito, e cancellei na prova o titulo de piedoso, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale, por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S. João de Deus.

Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a perfeição e a piedade do D. João II e D. João III? Poderemos, com juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o noticiarista licença que eu chame perfeito ao principe, e sabio a sua senhoria? A patarata é a mesma.