--Animo!--murmurou elle--abraça-te em mim, que eu não quero chorar-te nem que me chores, filha... Morreremos juntos.
Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar rispido das amarras, os gritos, as supplicas, os apitos, o troar da peça que pedia soccorro, e o dos trovões, que reboavam, e um relampadejar que azulava os abysmos.
E, de subito, a galera, após aquelle repellão que lhe vibrou as cavernas, quedou-se arquejante, a roçar nos espigões da restinga.
E as vagas, raivando contra aquelle estorvo, galgavam-no rolando-se, refervendo e marulhando de um bordo a outro. O porão descosia-se, bebendo e golfando jorros de agua como o monstro dos mares escalavrado pelos arpéos.
O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se no corrimão da camara, e disse:
--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo de sahir a terra.
--Nenhuma esperança?--perguntou o Africano.
--As vidas salvam-se... talvez...
--Só?...
Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo, estrangulado na garganta, rouquejou como um arranco da vida. Só! Só a vida? O meu suor de quarenta annos, os meus duzentos contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir pobre d'entre esta riqueza que é minha, que é o repouso da velhice, o patrimonio de minha filha? Só!