Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com a face beijada por aquelles raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata, com as feições levemente denunciativas da raça materna, quasi tirante a esmaiado amarellido, um bem harmonisado conjuncto de graças, avantajadas ao que se diz belleza, debaixo d'este nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e epiderme alvacenta.

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Trasmontada a linha, e festejado o passo com descantes da maruja, o céo entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros, e o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastellava, sobre noite, á volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889.

Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar urrava acapellado, as nuvens desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia frio e marmoreo na baça claridade da manhã.

Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento como um crepusculo de noite invernosa.

Bravejou subita furia de mar, apenas colhido o velame.

O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança de aproar a Cabo Verde, com quanto se temesse d'aquella costa infamada de muitos naufragios, desde que portuguezes se andam á cata de ouro e opprobrio por entre os colmilhos da morte, na espadoa das tempestades; a braços com a ira de Deus e dos homens.

Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de peça que detonasse dentro.

Deolinda foi colhida nos braços do pai, quando resvalava da camilha ao pavimento, com o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o nome da Mãi dos afflictos nos labios.

--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada de horror.