Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar torreado dos senhores de Farelães.
E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos Corrêas de Sá nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do Africano, dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba, e o palacio industrial que se levanta. Aquelle recorda as manhas epicas do peito illustre lusitano, a industria da lança que atirou da India para alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecut e Mombaça. Ergue-se o novo palacio para assignalar á posteridade que o peito moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor, differençando-se do antigo sómente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o indio pela frente, ou verberar o ethyope pelas costas.»
Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente pai, amealhára os seus haveres por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza não é sempre o estipendio generoso dos homens crueis. E, em corações afistulados por peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga em lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo sentimento do amor paternal. Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos dos braços de suas mães. Verdade é que os praticos d'estes ultrajes a Jesus--ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da consciencia humana--dizem que lá, nas cubatas, não ha mães, nem filhos: ha individuos bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços de familia. Se assim é, meu Deus, porque não déstes á vossa creatura de epiderme negra o amor maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada nos filhos?
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Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as portas, a capella e o jardim, Duque, o Africano, saudoso da filha, deixou a obra em meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo de doze mezes, a casa estaria feita.
E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazéns de café, de marfim, de gommas, e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas circulares de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado pelo sol a pique, era um como adubo forte, um guano de sangue estillado por entre febras vigorosas e distendidas pelo latego.
Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os negros, abarrotou a galera de carregação sua, esquipou a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim da filha, e proejou á patria. Parecia um dos antigos viso-reis que voltavam da India, d'uns que não se chamavam João de Castro nem Affonso de Albuquerque.
--Vale duzentos contos a carga da Deolinda!--diziam os amigos do Africano, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu dono, trapeavam bafejadas por aprazivel briza.
A navegação, por perto da costa, e sempre ajudada por prosperos ventos, correu alegre e descuidosa de receios.
Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou, enlevada em leituras amenas, passava as tardes na tolda, em quanto não chegavam os seus amores mais queridos, as estrellas do céo e as phosphorescencias do mar.