Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança dos annos, magro, macilento e tostado pelo sol da Africa.

Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se chamava o «Duque» por appellido, e o Africano por alcunha.

Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho de cortezias para lhe perguntar como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente cimentado.

Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andára viajando na Suissa. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S. Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo d'uma montanha, em casa imitante de outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se o sol do seu leito de neve.

E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria, disse á filha que, por cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquissimos.

E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára:

--E quando vamos?

--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a capella os ossos de tua mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que pude grangear mais que o preciso ao teu passadío, visto que preferes a viver em Paris uma casa nas serras de Portugal.

E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso chalet que a filha phantasiára.

Ora, os architectos do Minho, como não percebessem a planta do Africano, construiram-lhe um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico, um leviathan de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas.